Para que serve a literatura?

José Augusto Mourão

 

 

«La littérature est le lieu de la dignité, la mise en marche d’une responsabilité» (Vico).

 

Ética e Literatura

Mª Teresa Lopez de la Vieja é uma filosofa que se situa com grade maestria no campo da Ética. O seu mais recente livro, Etica y Literatura (tecnos, 2003), coloca-nos algumas das questões essenciais da Literatura: “fazer companhia”,  fazer memória, reflectir sobre o real, convite a «fazer justiça». Deliberar, julgar, fazer justiça, risco, argumentar são termos que percorrem todo o livro como injunções, palavras de ordem. «O “uso reflexivo” da Literatura forma parte de la deliberación y de los procedimientos de aprendizaje. Así pues, la reflexión adquire mayor amplitud con este “uso formativo”, si puede llamarse así.» (p. 60). A força argumentativa deste livro vem-lhe da proposta de incluir de certo modo a Literatura no campo da Filosofia Moral: a Etica reconhece valor heurístico, potencial reflexivo, uso formativo a Literatura. Os textos não criam realidade, mas informando-nos acerca das intrigas que tecem as relações humanas, em termos de relações de força e de relações de sentido, interrogam-nos sobre a pretensão de verdade que as instituições escondem. “Si lo literario no es un discurso secundario, efímero o trivial, sino que elabora lo cotidiano y lo particular hasta convertirlo en algo diferente a la anédota personal, entonces i es posible un uso critico, hay alguna forma de reflexión general en la misma elaboración literaria” (p.212). Mª Teresa Lopez de la Vieja fala de um “uso argumentativo” da Literatura, alinhando ao lado de P. Strawson

 
 que fala do uso “denso” dos argumentos práticos.

 

Os palácios da memória

A verdade da Literatura, que não se confunde com a verdade proposicional da filosofia analítica, pertencendo ao regime do “como se” não é apenas a verdade do jogo nem se identifica com a mentira: e um tipo de conhecimento que suspende a referência sem suspender o mundo a que se liga de uma forma singular. Para a verdade vai-se intersubjectiva, comunitariamente porque esse é o horizonte comum que se procura. Nos “vastos palácios da memória” de que fala Agostinho

 
 (Confissões X), tudo se recolhe, tudo se deposita: imagens sensíveis, afecções, noções abstractas, vagas, seres inteligíveis, lembranças daquilo que em nos e sofrimento e alegria. O esquecimento, esse “predador do tempo” (Ricoeur

 
) não para de rondar a casa. Não é a Literatura o melhor testemunho, o mais vasto espaço da memória e o melhor remédio contra o esquecimento?