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  Porto 2001 - O Acto Cultural
  «Porto e Roterdão - Pontes sem futuro?»

  [ Jacinto Godinho ]

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A programação de Roterdão 2001 está " prisioneira da ideia naíve do multiculturalismo soixante-huitard, procurando conciliar todos os tipos de cultura, o que resulta numa mistura pobre, com o demonstrou aliás a cerimónia de inauguração". Foi com este desabafo à Interact que Paulo Cunha e Silva programador cultural para as áreas do Pensamento, da Ciência, da Literatura e da articulação com Roterdão comentou os problemas de articulação de projectos entre as duas cidades capitais da cultura na Europa durante este ano.

Precisamente aquela que devia ser uma das áreas mais fortes do Porto 2001- – a articulação com Roterdão – está reduzida a um único projecto – a opera Melodias Estranhas com libreto da autoria do escritor holandês Gerrit Komrij e musica do compositor português António Ramos Chagas. Com base nas relações de amizade entre o português Damião de Gois e Erasmo a mais celebre figura histórica de Roterdão e fonte de inspiração central para boa parte da programação da cidade holandesa, os programadores procuraram dois autores contemporâneos, Ramos Chagas, compositor, viveu alguns anos na Holanda e Komrij, escritor, reside em Portugal. Komrij desenvolveu então uma narrativa em torno implantação do humanismo na Europa ( em que Erasmo foi uma das figuras centrais ) e naturalmente do multiculturalismo . " Um caso muito interessante de confronto e intercâmbio de culturas, uma boa oportunidade de comparar visões do Norte e do Sul da Europa antes do Iluminismo " afirmou Komrij em declarações ao Expresso (14-01-2001)

Em 1998 a Comissão Europeia tomou a inédita decisão de passar a nomear, daí em diante, duas cidades como Capitais europeias da cultura.

Porto e Roterdão foram as escolhidas, acasaladas arbitrariamente depois de um difícil e quase irresolúvel processo de selecção.

As duas cidades viram-se assim obrigadas a partilhar projectos e a interligar a programação. Abriu-se caminho a uma interessante experiência de ligações entre cidades, mais profunda que a habitual mas apenas nominativa e pouco profícua geminação. Uma experiência em estereofonia era o desafio.

Porto e Roterdão partilham tantas semelhanças quanto diferenças. São duas cidades ribeirinhas em contacto permanente com um rio, apesar do Porto se situar na orla marítima e Roterdão no centro,. Roterdão possui aliás no rio Rotte o maior porto da Europa e orgulha-se do estatuto de porta de entrada para o continente europeu.

São duas cidades que mantêm grandes rivalidades com as capitais dos respectivos países, condenadas a viver à sombra de Lisboa e de Amsterdão. O Porto tem 300 mil habitantes e Roterdão 600 mil.

Se as semelhanças as aproximam é nas profundas diferenças existentes que se poderia apostar para lançar um intercâmbio inovador.

O Porto é uma cidade velha com um património histórico invejável. Roterdão foi praticamente destruída pelos bombardeamentos alemães na segunda guerra mundial. Reconstruída, possui agora um invejável repositório de arquitectura contemporânea. Destaquem-se as "Cube Houses" de Piet Blom e a fachada do café De Unie, de J.J. Poud inspirada na pintura de Mondrian.

A cidade tem a arquitectura mais arrojada da Europa e a programação reflecte a necessidade de dar visibilidade à poderosa escola de arquitectos da cidade. Nisso também se assemelha ao Porto que possui em volta de Siza Vieira e Souto de Moura uma forte escola de arquitectura.

A cidade não tem a urgência do Porto em ser requalificada e por isso Roterdão 2001 vai investir os 4,6 milhões do orçamento só em programação cultural.

Enquanto que o problema prioritário do Porto é o de revitalizar uma recepção cultural, praticamente anulada pelo salazarismo que retirou a cidade dos circuitos de circulação da arte europeia, em Roterdão o problema não é de oferta. Habituados a uma abundante solicitação de acontecimentos artísticos os habitantes de Roterdão olham até com desconfiança para os gastos considerados excessivos para a produção da capital da cultura.

No entanto o comissário Bert Vom Meuggelen, acredita que acontecimento será decisivo para testar novas formas de solução multicultural. É que em Roterdão vivem pessoas de 160 nacionalidades. Por isso o lema da capital da Cultura é "Roterdão é muitas cidades" e tem como base para o conceito o livro de Italo Calvino As cidades invisíveis. Cada cultura uma cidade e o dilema de Roterdão é o de saber se ainda tem uma identidade própria ou é igual a todas as outras. São mais de trezentas as iniciativas na programação que procuram responder à questão – "quem são, de onde vem para onde vão" os habitantes de Roterdão. (http://www.rotterdam01.nl)

O destaque maior da série de eventos programados é a mega-exposição dedicada ao pintor holandês Hieronimus Bosch (1450-1510 ) de Setembro a Novembro.

Uma outra exposição apelidada – Panorama Roterdão – trará até à cidade uma selecção de pinturas de Turner, Kandinski, Duchamp entre outros.

Para já nestes primeiros meses decorridos existem é notícias de fracasso nas ligações multiculturais. A opera Aisja foi retirada por causa de ameaças aos cantores marroquinos e um documentário sobre o Ajax foi retirado devido aos protesto do hooligans do Feynoord, o clube mais representativo de Roterdão.

Na Holanda são vários os críticos da estratégia do Comissário Van Meggelen de virar a cidade para o problemas internos em vez de se apresentar ao exterior. Uma das consequências desta estratégia foi o desprezo com que os Holandeses receberam as propostas de articulação com o Porto 2001. Foram todas inviabilizadas com excepção para a citada ópera, Melodias Estranhas.

Paulo Cunha e Silva, que rejeita qualquer responsabilidade no défice evidente de projectos de articulação, propôs vários tipos de ligação.

Uma ligação pela memória. Portugal e a Holanda foram ambos colonizadores do Brasil. Foi projectada uma exposição de arte contemporânea brasileira surgida nos últimos trinta anos: Lydia Pape, Artur Barrios e António Manuel. Os colonizadores a procurararem devolver o olhar ao colonizado. A exposição vai-se realizar mas sem a participação holandesa.

Uma ligação simbólica. O maior símbolo de Roterdão é ,como vimos Erasmo e o seu Elogio da Loucura. Paulo Cunha e Silva propunha-se desenvolver uma serie de performances realizadas por artistas plásticos do Porto no hospital psiquiátrico Conde Ferreira. A articulação proposta aos holandesa era pegarem num dos símbolos do Porto, o livro Amor de Perdição de Camilo Castelo Branco e trabalhá-lo numa prisão. O maior medo do Homem – enlouquecer – e o seu maior desejo – o amor – seriam assim articulados numa série de iniciativas para desconstruir a ligação Loucura/Amor.

Ligação popular – O futebol é dos espectáculo privilegiados da maioria dos habitantes tanto do Porto como de Roterdão. A proposta de Cunha e Silva consistia na realização de dois jogos amigáveis entre o Porto e Feynoord. Os tradicionais painéis de publicidade seriam substituídos por versos transformando o jogo numa performance.

Ligação virtual. Através de uma tecnologia de teleconferência, disponibilizada pela Portugal Telecom, habitantes do Porto e de Roterdão podiam comunicar e mostrar a cidade uns aos outros em cafés, hospitais, igrejas ou praças. Os holandeses rejeitaram o projecto porque não tinha conteúdos.

Havia ainda o projecto de oito curtas e medias metragens cinematográficas realizadas por portugueses e holandeses. Os holandeses só realizaram duas que foram estreadas no Festival de Roterdão mas não foram traduzidas de forma a estrear no Fantasporto. Existe ainda o projecto Ruas que consiste em mudar para holandês todos os cartazes e restante sinalética de uma rua do Porto. O mesmo acontecerá em Roterdão onde uma rua se transformará em rua portuguesa. Mas este projecto esta a ser desenvolvida em conjunto com a Associação dos Comerciantes de Roterdão e não com o comissariado.

A presença holandesa na Porto 2001 tornou-se assim claramente desproporcionada.

Para além se ser uma arquitecto holandês – Rem Koolhas – projectar a Casa da Musica, a participação holandesa espalha-se por todas as áreas da programação. Desde logo uma mostra do acervo do principal museu de Roterdão – o Boijmans Van Beuningen – com obras de Rubens, Courbet,Ruysdel,Gaugin,Monet,Kandinski, Magrite,Dali entre outros. Amostra integrada num ciclo de exposições dedicadas à paisagem – "Sobre, Em volta, Dentro da Paisagem" que abriu em Janeiro a participação de Serralves no Porto 2001.

O Centro Português de Fotografia sediado no Porto vai receber uma exposição de fotografias de fotógrafos holandeses. Mas não foi possível conseguir que o homologo holandês também situado em Roterdão, o Arquivo Fotográfico Holandês, exibisse obras de fotógrafos portugueses.

Haverá ainda um livro sobre a forma como a Holanda foi sendo vista e descrita por vários escritores portugueses.

A não ser que algo mude nas relações entre Porto e Roterdão as pontes, as poucas que restam dificilmente perdurarão. Haverá tempo ainda para novas pontes?