A INTERACT decidiu acompanhar com um olhar mais próximo
as várias secções do Porto 2001- Capital da Cultura. Para tal convidou analistas que
por desenvolverem actividade profissional ou critica próxima de cada uma das áreas da
programação, possam fornecer sobre elas uma visão, independente. As suas opiniões
serão introduzidas sob a forma de ensaio ou de entrevista. Interessa sobretudo fixar
entre a catadupa de eventos aqueles que efectivamente são decisivos como formas de,
reflectir, questionar ou simplesmente, usufruir as formas culturais contemporâneas.
Começamos pela Musica, a área que consome mais orçamento
do Porto 2001 ( 1,4 milhões de contos ). Na próxima edição da Interact, analisaremos
as restantes áreas da programação.
Rui Vieira Nery, é Licenciado em História pela Faculdade de Letras de Lisboa (1980) e
Doutorado em Musicologia pela Universidade do Texas em Austin (1990). É actualmente
Professor Associado do Departamento de Artes da Universidade de Évora e Director-Adjunto
do Serviço de Música da Fundação Calouste Gulbenkian. Rui Vieira Nery é o nosso
primeiro convidado.
INTERACT Justifica-se que a musica tenha a maior fatia de orçamento da
programação cultural do Porto 2001.
RUI VIEIRA NERY - Estamos a falar de um investimento que tem algumas componentes
de fundo com as que têm a ver com a Casa da Musica, com o reforço da Orquestra, com a
criação de um Estúdio de Opera ou com a criação de um grupo de musica contemporânea.
INTERACT Parece-me que toda a programação foi pensada a partir desse
centro, dessa estrutura que é a Casa da Musica, que ainda não existe.
Será que o facto não enfraquece a programação, por estar órfã de um cenário que
seria o ideal para ela.
RUI VIEIRA NERY Eu penso que não! É obvio que o ideal seria que a Casa
da Musica estivesse a funcionar. Mas entre aquela velha tradição portuguesa de no ultimo
momento improvisar qualquer coisa para dizer que se inaugurou a obra a tempo e o fazer uma
obra com calma, com o tempo necessário, controlando os custos, eu acho, claramente, que a
segunda hipótese é mais razoável, é mais responsável. No fundo o que se está a fazer
é olear uma máquina que depois se encaixará nesse espaço da Casa da Musica quando ele
estiver pronto que é uma coisa que, neste momento, ninguém pode prever com rigor.
Fala-se na Primavera de 2002 mas já ouvi previsões ainda para mais tarde, fins de 2002
ou mesmo inícios de 2003.
INTERACT A Casa da Musica é daquelas coisas de que toda a gente já
ouviu falar, mas que poucos sabem concretamente o que é. O que é trás de inovação que
a torne efectivamente uma casa da musica? ( jpg-Casa da Musica 3)
RUI VIEIRA NERY ( mp3 )- A Casa da Msica vem por um lado
trazer uma coisa que fazia uma falta enorme que é uma sala de concertos no Porto, para
residência da Orquestra Nacional do Porto. A Orquestra Nacional estava a ensaiar num
espaço completamente inadequado que não lhe permitia sequer expandir-se a uma dimensão
completamente sinfónica, como é o caso de São Bento da Vitória e portanto precisava
urgentemente de ter um auditório para residência e para apresentação regular. E isso
não podia ser feito em nenhum dos outros teatros do Porto que têm uma programação
muito variada, onde a orquestra pode encontrar espaços mas não pode dispor deles
livremente. Portanto logo á partida a Casa da Música justificava-se como espaço para o
auditório de residência da orquestra.
Mas depois a ideia foi, segundo percebo, potenciar esse equipamento dando-lhe ao mesmo
tempo outros programas residentes, como seja:
- Um estúdio de opera, porque não há em Portugal senão um teatro de
opera que é o São Carlos. Há ainda um esforço muitíssimo meritório no Porto que
é o Circulo Portuense de Opera, mas que existe com grandes dificuldades de produção,
sem meios próprios e era necessário haver não só um segundo polo de produção no
país, de preferência no Norte, mas também uma estrutura de profissionalização para
jovens cantores e jovens músicos interessados na opera que obviamente na Casa da Musica
se pode agregar ao trabalho de orquestra.
- Um agrupamento profissional de musica contemporânea, que não existia em Portugal,
enfim com alguma dimensão, havia pequenos grupos que actuavam em função das
solicitações que iam tendo mas fazia falta um grupo especializado de formação média
neste repertório. E portanto a ideia de criar o Remix O Ensamble de Musica
Contemporânea da casa da Musica - veio também colmatar essa lacuna.
E depois quando há pólos importantes como estes; a Orquestra Sinfónica, o estúdio
de Opera, e o Estúdio de Musica Contemporânea há uma série de rentabilizações
sociais que podem e devem ser feitas a partir desse investimento nos três pólos que têm
a ver com programas educativos, com divulgação, com animação musical, com formação.
Por todas estas razões fazia falta um espaço concebido especificamente para esta
finalidade. Há uma polémica em torno da construção da Casa da Musica que talvez me
pareça não ter sido a melhor decisão, que foi não ter construído um fosso de
orquestra, o que obviamente não permite a apresentação de espectáculos de Opera. Isso
obriga a que uma das valências da Casa da Musica, o seu Estúdio de Opera, tenha que
utilizar outros espaços para as suas apresentações, o que não me parece que seja uma
boa solução. Mas tirando esse aspecto penso que o projecto é muito válido. muito
importante.
INTERACT É importante como bom espaço para ouvir música, isto tendo em
conta as exigências de um bom melomano?..
RUI VIEIRA NERY Esperemos que sim. Nunca se pode prever com rigor a
qualidade acústica de uma sala. Podem-se evitar os principais erros e podem-se prever,
digamos condições medias que asseguram uma qualidade media, mas depois há uma um valor
acrescentado acústico que só se consegue controlar no ultimo momento usando pequenos
acertos finais. Mas quando os estudos acústicos são feitos com rigor, com qualidade é
de esperar que o resultado seja, pelo, menos médio.
INTERACT E a Casa poderá ser uma coisa realmente única ?
RUI VIEIRA NERY Como lhe digo não sabemos! Quer dizer o projecto, é um
projecto muito engraçado até porque assenta num principio de transparência no sentido
inclusive físico do termo. Há uma leitura muito fácil do edifício e em torno dele. Há
uma leitura muito fácil de cada uma das áreas de trabalho quando se está dentro do
edifício e portanto pelo que eu posso perceber na maqueta tem-se a sensação de estar
mergulhar num espaço vital, num espaço de actividade fervilhante, onde se está a fazer
musica de muitas maneiras e ao mesmo tempo. Isso pode ser um factor muito sedutor na minha
opinião.
INTERACT Outro dos pilares desta programação é a Orquestra Sinfónica
criada recentemente também! Justifica-se a existência da Orquestra Sinfónica do Porto?
RUI VIEIRA NERY A Orquestra Nacional do Porto foi, e é, um projecto ao
qual me sinto particularmente ligado porque eu fui, há muitos anos, um dos consultores
artísticos do projecto da Regie Sinfonia que lançou no Porto uma orquestra de grande
qualidade que depois foi completamente trucidada pelo doutor Santana Lopes. A orquestra
arrastou-se em condições degradantes até que, quando eu passei pelo Ministério da
Cultura foi possível reintegrar, no Estado, esse projecto sob a forma de Orquestra
Nacional do Porto como Instituto Publico com condições dignas de contratação dos
músicos e etc. Portugal só tinha uma orquestra sinfónica, que era a orquestra do Teatro
Nacional da São Carlos. Essa orquestra sinfónica estava absorvida em grande parte pelas
exigências da temporada de opera e portanto não tinha uma disponibilidade completa para
o repertório sinfónico. Fazia, portanto todo o sentido que houvesse pelo menos mais uma
orquestra sinfónica publica de boa qualidade que cobrisse o país a partir do polo do
Porto. Isso era uma necessidade imprescindível, eu não sei se nos teremos neste momento
condições para termos muitas mais orquestras sinfónicas. Temos certamente condições
para precisarmos de mais orquestras regionais, de dimensão media. Até porque não temos
salas em grande quantidade equipadas para receber uma orquestra sinfónica. No entanto o
Porto precisava absolutamente, nesta fase do seu desenvolvimento cultura, de uma dimensão
orquestral sinfónica e o alargamento foi muito bem feito. Eu estive a dias no Porto a
ouvir a orquestra na sua formação sinfónica dirigida pelo maestro Frédéric Chaslin
que é o novo director titular e é claramente uma excelente orquestra em qualquer parte
do mundo. Portanto é um instrumento de trabalho e de acção cultural precioso depois
depende da maneira como for utilizado.
INTERACT Pode concretizar melhor ou seja o que é que nos pode levar a
dizer que é mesmo uma excelente orquestra em qualquer parte do mundo?.
RUI VIEIRA NERY Primeiro percebe-se que houve um cuidado muito grande na
selecção dos músicos. Uma orquestra é tão boa quanto for o pior dos seus músicos,
porque é o elo aonde vai romper-se a cadeia. E o que percebe quando nos ouvimos a
Orquestra Nacional do Porto é que de facto há um nível médio muito alto, há um
domínio técnico muito seguro do repertório. Eu lembro-me do tempo da antiga Orquestra
Sinfónica do Porto da RDP, na fase final que era uma coisa tenebrosa, em grande parte já
com alunos de conservatório, com uma composição completamente desfalcada e com um
nível de execução técnico confrangedor. Aqui é exactamente a sensação contraria que
nos temos. É a sensação de grande profissionalismo, de grande domínio técnico, de
possibilidade de abordagem de qualquer repertório sinfónico sem obstáculos técnicos e
portanto é como um bom piano que nós damos a um bom pianista para depois cada um desses
bons pianistas demonstrar a personalidade artística mais ou menos interessante, é o
mesmo que acontece com a orquestra. Conforme os maestros que for tendo nós vamos ouvindo
produtos musicais mais ou menos interessantes mas a orquestra está pronta a responder a
cada um desses desafios e aos perfis próprios de cada maestro.
INTERACT - E parte importante desse desafio é a sua possibilidade de
internacionalização. É importante também para sua sobrevivência ou nem por isso?
RUI VIEIRA NERY Sabe a internacionalização das orquestras hoje em dia
é muito complicada porque há muitas. Há muitas boas, os custos de viagem são
descomunais e portanto é importante que a orquestra no Porto possa viajar de vez em
quando até porque é uma espécie de porta estandarte do Estado português, quer dizer
deixará ficar muito bem o Estado português aonde quer que vá .Mas, sobretudo é mais
importante que esse padrão de qualidade internacional se exerça no seu próprio espaço
de actuação porque um publico habituado a ouvir regularmente uma orquestra com esta
qualidade já não vai tolerar uma oferta de menor qualidade que lhe queiram dar amanhã e
isso contribui em muito para uma formação intensiva do próprio publico, dos critérios
de exigência do publico.
INTERACT Eu já gostaria de voltar a esse assunto da formação dos
públicos, mas vou continuar com a programação. Eu sou um pouco leigo na matéria mas na
analise desse programa não me pareceu que houvesse muitos momentos de criatividade
própria ou seja de grande aposta em obras próprias criadas especificamente para esta
programação. Acha que está bem assim ou que deveria ter havido mais uma aposta na
criação de obras originais como é aliás o caso da opera Melodias Estranhas?
RUI VIEIRA NERY Isso ... eu ia falar da obra do António Chagas Rosa que
parece que é um belíssimo projecto e ainda por cima é um projecto que marca também a
transversalidade do Porto e Roterdão como capitais simultâneas. De facto penso que teria
sido possível um maior numero de encomendas, de obras novas sobretudo aos compositores
portugueses. No entanto a presença do Remix como ensamble de musica contemporânea que
vai actuar ao longo de todo o ano e que em principio, se Deus quiser se manterá em
actividade, representa uma aposta forte na música contemporânea. Eu talvez preferisse
que essa aposta forte fosse acompanhada de um maior numero de encomendas a autores
portugueses, como até talvez preferisse ver uma mobilização mais forte dos interpretes
portugueses, até locais. Isto é sempre uma questão que se põe, já se pôs em Lisboa
94, que é: como é que se conjuga a vontade de internacionalização com a vontade de
reforço do tecido produtivo, artístico, local. Abrangendo tanto a criação como a
execução? E era importante que a par com os grandes acontecimentos e o Porto 2001 está
cheio de grandes acontecimentos, talvez pudesse ter havido uma aposta em programação
erudita, numa rede salas mais pequenas, mais próximas das populações, eventualmente
até na própria cintura do Porto. Só que isso exige uma equipa de produção complexa e
pode ter sido essa a razão que levou os coordenadores a não optar por essa solução.
Mas penso que, em algum momento, será necessário começarmos a pensar mais nessa segunda
linha, nessa segunda divisão, sem a qual há uma espécie de almofada de ar, de hiato
entre a população em geral e estes acontecimentos de ponta.
INTERACT Disse à pouco que a programação está cheia de grandes
acontecimentos. Penso que já ocorreu um que foi a vinda de Pierre Boulez.
Para além de gostar que me falasse um pouco da importância do Pierre Boulez, gostaria
que destacasse também quais são esses grandes acontecimentos, sem necessidade de os
exaustivar, ou ser muito rigoroso. Aquilo que há primeira vista é imperdivel.
RUI VIEIRA NERY Há o ciclo das grandes orquestras mundiais, que são
todas elas orquestras de primeiro plano e que de resto e que corresponde há partilha com
o Porto do ciclo que tradicionalmente a Fundação Gulbenkian faz em Lisboa . São todas
elas orquestras de primeiríssimo plano com maestros e solistas de topo de gama.
INTERACT Existe alguma que lhe suscite particular interesse.
RUI VIEIRA NERY Para mim claramente importante era a vinda do Pierre
Boulez. Já tinha vindo várias vezes a Lisboa mas esta foi a primeira vez que foi ao
Porto. Deixe-me só antes do Pierre Boulez, destacar estas três companhias de opera
inglesas; a Welsh National Opera, a Scottish Opera; a City of Birminghan Touring Opera,
são três grandes companhias profissionais inglesas que poderiam constituir um modelo
para o desenvolvimento do Estudio de Opera da Casa da Musica se ele vier de facto a
enraizar-se. São companhias que juntam uma grande qualidade musical e lírica a uma
grande qualidade teatral. Têm encenadores e figurinistas de primeirissimo plano, mesmo no
seio do espectáculo inglês em geral e portanto são exemplos muito importantes, quer
pelo repertório menos conhecido que muitas vezes fazem, quer pelas leituras inovadoras
que fazem do repertório mais tradicional.
Voltando a Pierre Boulez. Boulez é uma daquelas raras personalidades, num mundo da
musica internacional a quem nós podemos aplicar sem complexos o termo de génio. É um
dos grandes criadores musicais do século XX, muito em particular da segunda metade do
século. É um dos maiores maestros, também do século XX. É uma personalidade com uma
produção teórica incontornável para se pensar na música do século XX. E portanto
nessa tripla faceta de maestro, compositor e ensaísta/pedagogo é realmente um monstro
sagrado da música erudita. Inclusive para o bem e para o mal porque o que aconteceu a
determinada altura em França e na Alemanha foi que o peso de Boulez era de tal forma
esmagador que tudo o que não correspondesse ao modelo Boulez era considerado menor. Os
franceses deram-se ao luxo quase de desprezar compositores como o Poulainc, ou um Britten
ou outro qualquer compositor que alinhasse na estética de hipervanguarda do Boulez e isso
teve consequências um pouco castradoras em determinados aspectos do desenvolvimento
musical europeu, coarctou liberdade de acção de grandes compositores e fomentou até o
aparecimento de uma espécie de "clones" de terceira categoria que se colavam
às receitas que achavam que viam na figura de Pierre Boulez. Boulez esteve sempre acima
dessa realidade, e ele próprio enquanto pensador teve sempre uma posição muito radical
do ponto de vista teórico e filosófico, mas ao mesmo tempo, nos últimos anos uma
posição de crescente tolerância para com a possibilidade de outras abordagens e outras
posturas teóricas. Mesmo aí foi muito importante até para conter os seus próprios
entusiastas.
INTERACT Como definiria a marca Boulez na música?
RUI VIEIRA NERY Eu diria talvez a obsessão do rigor a todos os níveis.
Para o Boulez, a não ser nas passagens em que ele racionalmente decide que vai haver
algum elemento indeterminado naquele momento exacto, portanto, determinado pelo contexto
embora indeterminado porventura no preenchimento desse espaço; excepto nessas situações
que são raras há nele uma preocupação de justificação estrutural de cada elemento no
seio do conjunto da obra musical. Há uma grande preocupação em não deixar nada ao
acaso, nada que seja acessório, nada que seja irrelevante.
INTERACT Portanto um grande controlo do ínfimo por assim dizer?
RUI VIEIRA NERY Precisamente. É um controlo absoluto da linguagem, da
forma e dos respectivos fundamentos teóricos.
INTERACT Percebe-se também, nesta programação, uma grande
preocupação em celebrar a Guilhermina Suggia. Concorda também que a obra da Guilhermina
Suggia esteja muito presente na programação do Porto?
RUI VIEIRA NERY Sim. Eu acho que há depois aspectos são
idiossincráticos, o Porto tem um certo numero de grandes personalidades no conjunto da
história da musica portuguesa e portanto fez questão das invocar ou de invocar algumas
delas, pelo menos., como símbolos hereditários.
INTERACT Não é uma invocação bairrista?
RUI VIEIRA NERY - Não Suggia foi uma grande
violoncelista a nível internacional. Não teve apesar de tudo a carreira que hoje em dia,
por ventura, teria porque os circuitos musicais funcionavam de forma bastante diferente,
porque também preferiu estar em Portugal em vez de optar por uma itenerância permanente,
mas foi uma mulher que deixou uma marca indelével no meio do violoncelo internacional.
Portanto vale a pena e é justíssimo, invocá-la . No século XX não temos muitos mais
interpretes que tenham atingido este grau de destaque internacional. Tivemos o Pedro
Feitas Branco como maestro, temos a Maria João Pires e pouco mais e portanto justifica-se
que ela seja invocada. Ainda por cima restaurou-se um dos violoncelos dela e isso serviu
também para pôr a tocar uma serie de jovens violoncelistas portugueses o que também é
um ritual de passagem e um testemunho de continuidade interessante. Um outro ícone que
também foi utilizado foi o de Pedro do Porto que ainda por cima é uma conquista recente
da musicologia para Portugal visto que era um compositor que tinha uma grande carreira em
Espanha e tinha uma grande produção. Era considerado um dos grande compositores da
musica espanhola do inicio do século XVI, fins de XV princípios de XVI, e parece hoje em
dia
incontestável que esse Pedro de Escobar que fez carreira em Espanha era o nosso Pedro
do Porto e portanto, muito embora Pedro do Porto tenha saído do Porto muito cedo e nunca
mais tenha lá voltado, tanto quanto nós sabemos é, apesar de tudo, uma figura
emblemática da musica portuguesa renascentista com uma ligação pelo menos de nascimento
ao Porto e é interessante aproveitar este pretexto para chamar a atenção sobre ele.
Embora seja duvidoso que se possa relançar como figura emblemática do próprio Porto e
que seja mais uma grande figura do renascimento ibérico.
INTERACT No programa o peso do jazz é tremendo. Justifica-se?.
RUI VIEIRA NERY Penso que sim. Em Portugal o jazz está em grande
desenvolvimento. Há uma dúzia de grande interpretes de jazz portugueses já com
reputação internacional e que têm ao mesmo tempo já uma rede de contactos
internacionais que lhes permitem tocar com qualquer grande figura do padrão mundial do
jazz. Portanto isso justifica um investimento significativo neste sector que ainda por
cima tem uma capacidade de penetração junto de camadas mais jovens que talvez ainda
sejam um bocadinho assustadiças em relação ao repertório erudito.
INTERACT Isso significa na sua opinião que é aí talvez, no jazz que
estamos mais perto do topo da grande produção mundial em termos de criatividade?
RUI VIEIRA NERY É muito difícil fazer isso. Eu diria que tanto no jazz
como na musica erudita nós sofremos de carências estruturais terríveis que têm a ver
com a quase a ausência de formação musical geral nas escolas. A má qualidade do ensino
musical é esmagadora na maioria dos casos e portanto o sistema funciona, não no sentido
de identificar talentos e de lhes dar condições para se desenvolverem mas quase no
sentido contrário de tentar fazer do processo do aprendizagem uma espécie de prova de
fogo em que só mesmo os melhores conseguem dar o salto. O sistema sufoca talentos em vez
de os estimular e dos desenvolver devido às suas próprias carências e portanto os
sobreviventes são alguns deles de boa qualidade internacional mas encontram-se tanto na
musica erudita como no jazz. Aliás não é raro você encontrar gente no jazz que passou
pela formação erudita como o Mário Lajinha.
INTERACT Será que o sufoco por vezes, na formação mais erudita, é de
tal forma que eles encontram uma maior liberdade no jazz e preferem ir por aí ...
RUI VIEIRA NERY É possível até porque o jazz encontrou, apesar de tudo
carismas, de formação próprios, interessantes. A escola do HOT CLUB é uma grande
escola que tem, ao longo dos anos, produzido músicos de muito boa qualidade. De resto
mesmo em sectores da musica ligeira que não são directamente jazzistícos, há uma
nítida melhoria de qualidade geral dos arranjos, das instrumentações, da execução
instrumental em geral que tem haver com o impacto os músicos de formação jazzistíca na
musica ligeira em geral, às vezes até em musicas pimba muito comerciais e de muito má
qualidade nós encontramos aspectos de tratamento profissional que tem haver com essa
formação de gerações sucessivas de músicos de formação jazzistíca.
INTERACT Não sei se é um forte apreciador de jazz ao ponto de poder
destacar um ou dois desses acontecimentos!?.
RUI VIEIRA NERY Não, isso eu acho que você devia perguntar a alguém
mais especializado do que eu. Há uma outra coisa que gostava de salientar que era esta
questão da opera de Hans Krasa - Brundibar, porque é uma obra, para já de um
significado ético muito profundo. É uma obra que foi feita por um compositor judeu Hans
Krasa e que foi representada no campo de concentração de Teresín, que é ao mesmo tempo
um projecto de animação musical no sentido em que envolve uma grande quantidade de
crianças e de adolescentes isso destina muito fundamentalmente a um publico também de
crianças e adolescentes, mas que junta essa dimensão do projecto animação musical
propriamente dito uma dimensão moral, ética e política, no sentido mais nobre do termo
que quais deve ser sublinhado. Convém que estas coisas não estejam completamente
desenraizadas e que não estejamos a falar de produto musicais desgarrados de um tecido
social. A musica como todas as outras artes pode também, em certos momentos ser portadora
de mensagens sociais, políticas e morais de relevo como é o caso desta obra que além
disso vai ter uma grande numero de récitas e portanto pode vir a ser um polo de
atracção interessante para o publico jovem.
INTERACT - Acho que toda a gente está de uma forma espantada com os níveis de
adesão, quase histérico, à procura de bilhetes que têm existido ou que existiram pelo
menos nos primeiros meses Será que a musica hoje em dia ou sobretudo aquilo que é
chamado a grande musica erudita, precisa desta espécie de choque simbólico trazido pelos
grandes acontecimentos, de uma grande uma festividade para se relançar também para as
primeiras paginas do jornais, para se tornar a ela própria, por arrastamento, também um
fenómeno. Colocando a questão de outra maneira, será que todo este programa sem ter a
cobertura Porto 2001, noutras circunstâncias, teria a mesma adesão?
RUI VIEIRA NERY ( mp3 ) O problema principal é
que não haveria condições para fazer este programa senão com a Capital da Cultura. Sem
o Porto 2001 não teria havido condições nomeadamente financeiras para fazer esta
programação e esse é o lado que me preocupa. Tal como sucedeu com Lisboa 94 voltamos a
ter uma indigestão de oferta, nomeadamente musical que não tem precedentes e eu temo
muito que não tenha consequências ao mesmo nível. Por isso me parece tão importante a
aposta que está a ser feita na Orquestra, no Ensamble de musica contemporânea, no
Estúdio de opera e nos conjunto dos projectos da Casa da Musica porque são aqueles que
tem o potencial de continuar este trabalho. Esta procura demonstra que há interesse
portanto mostra que devidamente motivadas as pessoas estão interessadas em ir a
espectáculos musicais. Se isso é ajudado pelo lado bairrista ou festivo do evento tanto
melhor mas eu penso que isso também chama a atenção para um outro aspecto que hoje em
dia é absolutamente indispensável e que de resto nós aqui na Fundação (Calouste
Gulbenkian) também temos cada vez mais em atenção que é aspecto da comunicação. Não
é possível continuar a fazer eventos musicais ou espectáculos musicais fechados sobre
si próprios sem os tornar atractivos para o publico. As pessoas tem saber que as coisas
vão acontecer; têm de saber o que vai acontecer e têm que se sentir atraídas e
seduzidas para ir a esse evento. Normalmente o grande problema que acontecia muitas vezes
no Porto era quando se organizavam pontualmente espectáculos, por vezes de grande
qualidade não existia uma estratégia de comunicação suficientemente sólida para que
essas iniciativas viessem ao conhecimento do publico de forma sedutora e portanto havia
influencias menores por causa disso. Eu penso que apesar de tudo e isso tem-se verificou,
aconteceu em Lisboa, no pós em Lisboa 94, é que ficará no publico uma sensibilidade,
uma atenção para com potenciais ofertas deste tipo de espectáculos no futuro. Agora
temo que de facto, passada a festa, os níveis de investimentos públicos nestas coisas
venham outra vez a baixar muito e consequentemente possa haver uma decepção das
expectativas de continuidade por parte do publico.
INTERACT Já que um dos temas do Porto 2001 são "As
pontes para o futuro" parece-me que um dos problemas graves que envolve a musica hoje
é a capacidade de leitura, de descodificação que o grande público tem sobretudo para a
musica erudita. Há pontes, ligações que maioria dos portugueses não consegue lançar.
Entende-se que um melomano se consegue ligar ao que está a ouvir a partir de uma
partitura que conhece, de uma memória de execuções que lhe permitem uma leitura e
análise constante da performance. Tem referencias a partir das quais vai exercendo
permanentemente o jogo. Para a maior parte das pessoas essas referências não existem.
Como é que poderão existir? .
RUI VIEIRA NERY Bom as referências começam por ter que existir
necessariamente na escola. Estamos a falar de investimentos a médio prazo que são
indispensáveis. Em países como a Alemanha ou como a Hungria só para falar em dois
exemplos, com modelos económico sociais distintos visto que o modelo Húngaro ainda vem
do período soviético, em países como esses você tem um fenómeno de alfabetização
musical quase comparável ao da alfabetização literária. As crianças vão para a
escola e naturalmente são apresentadas ao fenómeno da musica como são apresentadas ao
fenómeno da escrita. Têm uma familiaridade com a linguagem musical que depois é
desenvolvida ao longo das varias etapas da sua educação e que faz com que a musica se
torne uma componente regular da sua vivência individual e em sociedade. Esse é que é o
percurso normal no entanto isto não exclui os aspectos da formação permanente e da
animação dirigida a todos os níveis etários. Há hoje em dia técnicas de divulgação
eficazes para adultos que não tiveram formação musical. Não digo com isso que esta
divulgação tenha de passar necessariamente pela educação, no plano da aprendizagem
formal. Não estou a pensar naquela ideia obsessiva de educar o povo como teriam os
mentores republicanos no inicio do século, porque nós não podemos subvalorizar o
aspecto lúdico e o aspecto de empatia dos sentidos com as coisas e portanto há adesões
que decorrem mais de um fenómeno emocional, afectivo ,lúdico, do que propriamente de uma
desmontagem racional, teórica, da arte musical. Agora o que é certo é que também os
apelos lúdicos e sensuais podem ser, qualificados, alargados e aprofundados com alguma
familiarização com as linguagens musicais.
INTERACT Parte do problema não está no facto de se ter construído em
volta da música clássica uma espécie de dualismo que a coloca numa margem com
pretensão a referência absoluta de qualidade desvalorizando e entrando em antagonismo
com a restante cena musical popular?
RUI VIEIRA NERY Um dos problemas principais está na conjugação fatal
de dois fenómenos que são, por um lado a inexistência de formação musical no
curriculum do ensino em geral. Cada vez menos, em Portugal as crianças tem possibilidade
de serem apresentadas ao fenómeno musical, como parte do seu crescimento educativo
normal...
INTERACT - Problema que nenhum Governo tem conseguido alterar ?
RUI VIEIRA NERY Piorou a meu ver e isso é realmente muito triste. A
conjugação disso com a evolução dos media, particularmente da televisão, no
sentido da maximização das taxas de audiência, portanto o não arriscar em nada que
não tenha à partida uma capacidade de penetração forte, nos espectadores, garantida,
significa que as pessoas não tem nem a oferta na escola nem a oferta nos media.
A massificação tem aspectos negativos e aspectos positivos. A massificação no
sentido em que tem alguma componente de democratização e permite que um maior numero de
pessoas tenha contacto com uma oferta média onde há alguma componente também clássica,
tem neste sentido aspectos positivos. Tem aspectos negativos, porque exactamente devido a
essa componente media o elemento clássico que lá está tende a ser aquele que é mais
fácil, mais imediato, muitas vezes até distorcido e portanto isso é preocupante porque
fecha as margens de escolhas das pessoas. E aqui o essencial está em tentar garantir o
processo contrário. Não está no sentido de dizer: "- Há aqui uma grande música
que é melhor que as outras e portanto é preciso levar as pessoas até ela!". Está
no sentido de dizer: "- Há uma coisa chamada musica, que tem uma serie de linguagens
e quanto maior for a nossa capacidade de conhecer e criar empatias com um maior numero
dessas linguagens, mais enriquecedora é a nossa relação com a música!" Portanto,
trata-se de dizer que é perfeitamente possível que as pessoas gostem de musica ligeira,
de todos os tipos, de jazz, de musicas alternativas e de musica barroca e de musica
contemporânea e do repertório clássico romântico, sem que tenham que fazer hierarquias
opressivas entre estes vários sectores. Mas é mau quando as pessoas só ouvem barroco e
é mau quando só ouvem rock. É bom que tenham noção da existência de uma gama de
linguagens muito mais vasta e que tenham capacidade de escolher, que num determinado
momento apetece ouvir um determinado tipo de musica, e depois apetece ouvir outro mas
sabem reconhecer os códigos de cada uma delas.
INTERACT Mas não reconhece que a musica clássica se fechou um pouco na
performance concerto e não conseguiu estabelecer no século XX o diálogo forte que
manteve, no século XIX, com todas as outras artes, sobretudo o teatro e a dança?
RUI VIEIRA NERY Não! Repare que hoje há mais gente a ouvir Beethoven
que no século XIX. A percentagem de pessoas, de espectros sociais muito amplos que ouvem
alguma musica clássica é muitíssimo superior à que alguma vez foi. Portanto nesse
aspecto o desenvolvimento dos media e dos processos de comunicação múltiplos,
desde logo o cdrom, a internet, o mp3, esse enriquecimento tecnológico possibilitou um
processo alargado à população. O problema está em que há, nessa globalização, nessa
massificação, há duas lógicas que são complementares. Curiosamente uma engendra a
outra, e elas quase que são formas de controle mutuo, que é por um lado haver um produto
médio que fornecido em condições idênticas um maior numero de pessoas e a um maior
numero de lugares, que corresponde ao ideal da globalização, e depois esse produto
médio não pode viver sem o imput de produtos minoritários de que se realimenta
constantemente e portanto o mesmo processo que leva à massificação tem que abrir portas
às diversidades de linguagem. Portanto você tem uma divulgação quer de repertório
erudito, que está contido nesse bolo maioritário, quer dos repertórios eruditos vários
que apesar de tudo são alimentados dentro dessa constelação da globalização, e essa
interacção entre os dois faz com que estatisticamente nós tenhamos um maior numero de
pessoas a ouvir musica erudita do que alguma vez tivemos. Por outro lado digamos que há
aspectos formais que não têm que ser entendidos como rituais, mas apenas como
condições óptimas de produção musical. Por exemplo uma orquestra num palco, numa sala
de concertos não é propriamente um espartilho formal arcaico. É um contexto que nos
permite acusticamente ter a visão de todos os músicos numa fonte sonora unificada, que
nos permite ter depois a projecção desse resultado sonoro em condições acústicas
ideais para o publico e etc. Que isso depois ganhe condições sociais de distinção
social à Bourdieu, e de piroseira a à Lili Caneças é outra
questão, e essa parte pode ser transformada, embora não me pareça que haja grande
esforço para o fazer, mas isso não significa sacrificar à partida o próprio modelo de
produção musical para esse repertório estabelecido, porque levar uma sinfonia de
Beethoven para um angar de aviões só para não ser na sala de concertos, significa uma
degradação clara do produto sonoro que está a ser oferecido às pessoas. È preciso é
fazer sentir às pessoas que podem ir a uma sala de concertos e que isso não é nem
opressivo, nem castrador.
INTERACT Mas o modelo de exibição de uma longa peça sinfónica está
de alguma forma alicerçada no modelo literário da grande narrativa, com quem partilha o
mesmo silêncio, capacidade de concentração, de introspecção, de estar muito tempo só
com a imaginação...
RUI VIEIRA NERY Sim mas vale a pena insistir...
INTERACT Como adaptar a actual experiência, quase visceral que um jovem
tem com a musica ligeira, condimentada com uma grande envolvência corporal e visual, tudo
correndo a uma velocidade vertiginosa, aos ritmos pesados de concentração da musica
erudita? Será possível reinverter o processo?
RUI VIEIRA NERY Eu acho que não se trata de reinverter mas de alargar.
Conjugar como um continuo sem rupturas. Eu não vejo obstáculo nenhum em que as pessoas
dancem acid rock à noite e ouçam Beethovem à tarde. É difícil mas é importante. Eu
acho que seria esse o papel da escola e de alguma componente dos media que não cumpre
essa função. É importante que eles sintam que existem outras coisas para lá dessa
experiência e que essa experiência pode ser aliciante e enriquecedora também.
O problema é que sons que já pertencem ao mainstream da sociedade e que estão na
essência da nossa vida que não precisam de apoios, nem de investimentos, nem de
estratégias para se auto sustentarem. Mas há outras linguagens que são mais frágeis e
que justamente para ganharem direito de cidade ao lado dessas do mainstream precisam de
estratégias de apoio que lhes permitam que as pessoas tenham conhecimento que elas
existam e tenham a noção de que não são repressivas, nem devoradoras, que são
fascinantes, que são sedutoras mesmo quando exigem alterações de hábitos. São em
muitos casos vícios adquiridos. O primeiro contacto com uma obra sinfónica pode não ser
uma sedução imediata mesmo quando há melodias atractivas aqui ou acolá por aquilo que
você dizia, pelas grandes estruturas narrativas, pela concentração mas há uma grande
quantidade de coisas na vida que exigem aprendizagem, não necessariamente no sentido
académico do termo, mas no sentido vivencial e isso não é necessariamente negativo. A
facilidade não pode ser um critério absoluto.
Também há outro tipo de sedução em mergulhar, de forma quase hipnótica numa obra.
Essa experiência também é especial. Eu noutro dia tive outra vez essa experiência com
o Parsifal, no São Carlos. Estamos a falar de quatro horas e meia de opera, portanto uma
coisa que há partida podemos achar que é excessivo, que é uma coisa artificial, e no
entanto mais uma vez se passa esse fenómeno hipnótico de nos mergulhar num discurso de
uma densidade e de uma projecção que nos arrasta até ao fim da obra. E isso pode não
ser uma coisa imediata e não há uma regra absoluta. Há pessoas que mergulham de
cabeça, tem empatia imediata. Há outras que precisam de todas as explicações e
iniciações possíveis e não conseguem atingir esse tipo de identificação. Uma coisa
é evidente interessada em que a musica erudita não seja senão um símbolo de
distinção e poder socioeconómico e portanto não está minimamente preocupada em
socializar esse património. Em geral são esses que fazem maior pressão sobre os
programadores no sentido de querer aquelas obras mais banais, porque têm estatuto
económico que lhes permite aceder a um espectáculo caro, mas não tem background de
formação musical que lhes permita digerir um espectáculo muito elaborado. È o que se
passa nos Estados Unidos onde é rarissimo ter orquestras que possam fazer
sistemáticamente musica do século XX porque os mecenas locais se opõem seriamente a
isso e querem ouvir mais uma vez os concertos de Tchaikovski e por aí adiante.
INTERACT Será que todas estas questões não estão também ligadas ao
facto de haver um défice claro de pensamento em relação à musica? Isto se tivermos em
conta o que se passa na escrita e na imagem cuja proliferação de conceitos críticos
associados permitiu também uma maior divulgação e até introdução á percepção dos
códigos e linguagens associados?
RUI VIEIRA NERY - Depende. Há um outro fenómeno que interfere com esse que
você está a dizer que é o de que a musica só existe no momento em que tocada é
ouvida. Isso significa que enquanto você tem na estante literatura de todos os séculos e
tem nas paredes ou nos livros a reprodução da pintura de todos os séculos e com o
vídeo tem hoje em dia num suporte acessível todo o repertório da cinematografia
possível; a musica pelo contrário só existe ali ao vivo naquele momento. O que houve
foi um fenómeno relativamente recente do ponto de vista histórico de transferência do
investimento essencial na vida musical da aposta na criação no próprio tempo para a
aposta numa espécie de olhar sobre o passado. Hoje em dia faz-se uma percentagem
esmagadora de musica de 1900 para trás relativamente aquilo que se faz de 1900 para a
frente o que é uma situação que não pode existir no campo da imagem visto que logo à
partida pela história recente do médium. A história do cinema é história do século
XX.
O problema é um fenómeno iniciatico. Existe uma iniciação quer à imagem quer à
escrita na formação escolar de base, e se não for na escola é em toda a envolvência
visual, na publicidade na televisão que tem uma grande capacidade de incorporação das
mensagens contemporâneas mais elaboradas. O que sucede ao nível da musica é que o
patamar de familiaridade com a musica é de tal forma mais restrito que esse debate, a
análise, a classificação critica, a produção teórica se fazem em círculos muito
mais restritos. Todos os fenómenos de reflexão da imagem como por exemplo os Cahiers de
Cinema, tem correspondência com fenómenos idênticos na musica. Regressemos ao nosso
Boulez e á revista equivalente aos Cahiers de Cinema que é a Musique en Jeu, onde as
pessoas se esgadanhavam sobre o que devia ou não ser uma produção musical de vanguarda,
sobre as responsabilidades sociais da musica, entre mil e uma coisas que tinham a ver com
as questões intelectuais da época. Só que tudo isto se passava num circulo muito mais
à margem do mainstream da sociedade. Houve sectores da sociedade que foram expostos a um
Godard e não foram a um Boulez.
Mas tem a ver com o estatuto minoritário que a musica tem, responsabilidade não só
da formação que não existe como da oferta muito mais virada para um repertório mais
remoto historicamente e portanto isso isola a esmagadora maioria dos cidadãos de hoje do
contacto com a criação, com as linguagens, com as problemáticas teóricas da musica dos
nossos dias.