Estás quase nu, lótus imperial.
Daqui a pouco, vais queimar as pétalas de água.
Porque és tu a árvore da revelação:
A noite prende-te os pulsos, grande rio. Gangética, a lua
escalda. Os teus botões de punho são de Deus,
esse Esquecido.
Gangética, a lua corre-te os dedos um a um.
Ó por excelência Iluminado, rio-ponte, lua verde,
manuelina espádua.
Não precisas de
te banhar: água és, Senhor:
eu, uma tua escrava. Lavo-me no que nem
sequer pensaste,
e fico-te raiz pelas palavras,
Ficus
Buda arquictónico, na floresta meditas como no deserto Cristo -
em quê ?
Acaricio-te como a um pergaminho
que lê o seu próprio manuscrito.
Siddartha - pequeno e grande Buda sem chagas visíveis - volta
o rosto para aqui.
É de batráquio o teu olhar oblíquo - não desejas, não sofres.
Não falas, não sofres.
Um demónio em mini-saia acende fósforos para que o vejas..............................
Não vês, não sofres.
Não ouves - ou sentes o rumor das tuas próprias folhas em
sílabas de outono cadentes
e
s
t
r
Outro igual a ti é teu reverso:
Palavras, disse-as - sofrendo.
Ouviu apupos - sofreu-os.
Queria dizer: à flor eruptiva do pensamento, os opostos
trazem na língua o mesmo sabor
a salsa e a louro.
Esforço-me por falar no teu código, mas se não sofres é porque não
Se não tens memória de ti
ainda menos dos outros.........................................
Não entendes-------------------------------------------
Mas acordas numa vagina de sal,
quando falo em labaredas.
Em manifesto de alegria, pede-se à vida uma orgia de silêncio.
Mística árvore, na floresta és catedral. Um rostinho feminil
urge na ramada - é uma ave.
Leitosa, virado para baixo o bico,
asas desfraldadas,
assim um caça despenhado das alturas,
mergulha, a
p
i
u
e
ultrapassada a barreira da luz e o ponto de não-retorno.
Mas é isso a fé - uma cabeleira de esmeraldas arrastada num
trágico acidente sobre a relva encarnada.
Mexer na morte com a ponta dos dedos, treinando a mão toda
para quando vier. Mexer no sangue e sem repulsa o ver.
Não havendo catástrofe, não havendo uma flama que te devore
da raiz ao céu, que árvore serias - és?
Figueira-dos-pagodes, nada, nome de barbárie, profaníssima,
iletrada nas letras invisíveis, coisa ali posta para repasto
apenas
Ardes, arbustiva, numa vertigem de porta que só abre com a ponta
de uma adaga.
E não por ter a chave nela que qualquer um roda sem saber de
rodas nem de portas que não servem para abrir nem para
fechar
mas para passar por elas.
Sofrendo-as.
Atravessar a sua inexistência material.
Atravessar fisicamente
como quem se atravessa a si mesmo de lado a lado
e rasgado o corpo
em seus órgãos à vista
desarmada
tudo vê o que tem dentro:
os fluidos, o rim, o fígado,
de que também são feitos os astros.
Visto isso, já não há mais nada para ler.
Lido isso, já não há mais nada para ver.
Só o Impossível, Ficus.
São de inteligência os teus figos cerrados
numa gramática egípcia - Árvore Bô. Sobre eles na noite
lavram
cassiopeias e as pedras levantam voo
mesmo sendo ápteras
Só a fé permite estes prodígios em que a alma sedenta
mergulha e nada, nilótica e de curso temporário
Nos extremos, sobre arame farpado ou coroa de espinhos,
sobre isso langue ela respira e vem-se.
De precipício em precipício, chamem-lhe Allah, Buda ou Cristo,
realmente sois a Árvore.
Abrupta, vinda da bruma nervosa, vibra. Está de pé no meio
de um tornado, armada de folhas que pingam ácido.
Verga, o chão corrompe-se,
ela,
Doem-me as palavras como se fossem dentes, Asvattha
Dói-me o coração como se fosse um
E Deus chega aos olhos como se fosse lágrimas, Asvattha
Deixas um risco de luz atrás de ti quando te afastas - e é cada vez
maior o risco, Asvattha. Mas para quê entrar na floresta
se não for para enfrentar o risco?
Recolhes ao teu secretíssimo URL -----------------------------------
Digito, cega de desejo:
Não te vejo... Ofício das Trevas.
Não desesperes, hei-de encontrar-te ---------------------- Experimentemos de
outra maneira:
Como é possível?! Então Deus não está aqui?!
Enganei-me de certeza, é tão sensível a linguagem digital -------------------
Pela última vez te bato à porta ---------------------------
Mesmo que não estejas, juro que te encontrarei:
Em construção a página, que vergonha, meu Deus!
Então essa Obra, Criador?! Ainda mal a começaste?!
Vem cá, Asvattha ---------------------------------------------
Dissolve-se a paisagem quando a abandonas, Asvattha
Vem-te deitar outra vez comigo, Asvattha
Amanhã
Às portas do abismo,
pedimos socorro ao poema......................................................
Deixamos pistas para voltar,
fechadas as palavras como cofres. Concordamos em partir
Abro o livro na página que mostra o teu rosto,
o indispensável passaporte.
Não estou preparada para isto, Asvattha
Nem sei se apareça se desapareça do cenário
em que não ficarás só.
Entre princípio e fim, o demonico gosta de surpresas-------------------------
Não sei ainda de quem será a partida
Se de mim se minha,
Apetece a vida como figos, Asvattha
Suspenso da figueira num pensamento-liana
à semelhança daquele que nela se enforcou
estás E no entanto
Pusesse eu na tua face o sumo e beber-te-ias em mim
feito um sussurro
Invisível banquete de
isto aconteceu -------------------------------------------------
E agora me ocorre, meu Deus!
Não terás tu vindo à Terra?