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  Entrevista a Ieda Tucherman

  [Luís Filipe B. Teixeira]

 

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De que modo é que nós podemos conceber hoje a rede, de um modo geral, como uma nova forma de religiosidade?

Não só a rede, eu estava a pensar num conjunto, o que chamamos de sociedade da informação, basicamente a partir de três ideias: a ideia de uma virtualização absoluta – e acho que o primeiro modelo de virtualização foi a ideia de Deus; a ideia de desqualificação do corpo como lugar da experiência; e, por fim, a ideia de uma dupla espacialização e de uma dupla ocupação do espaço ¾ um espaço infinito onde vivemos a nossa vida material (e eu chamo material à vida natural mais a prótese) e o espaço ou o ciber-espaço, que é um outro infinito de uma qualidade, um infinito qualitativamente diferente, onde, de certo modo, nós habitamos como bancos de dados. Nesse sentido, é que eu acho que tem, não exactamente a mesma experiência religiosa, porque não se trata do contexto religioso, mas um princípio de, ao mesmo tempo, um certo atractivo espiritual, que alguns teóricos reconhecem, e segundo, essa ideia de que algumas das promessas que o modelo cristão fornecia, parece que o suporte técnico torna, pelo menos, potencialmente possíveis. Por exemplo, no ciberespaço não se sofre, a dor não consome o corpo, o arquivo permanece para sempre, tem um princípio de eternidade… Portanto, uma recuperação técnica de algumas ideias que nasceram com o operador religioso, não com o mesmo papel, digamos assim, mas com uma operacionalidade semelhante.

Quando fala da questão dos anjos e dos "dataspace" , a questão que pode surgir é: hoje em dia, a partir da Sherry Turkle e daquilo que ela questiona, a rede pode funcionar e funciona muito como uma despersonalização. A questão que fica é a de saber de que modo é que os computadores e a nova técnica podem funcionar como novo registo daquilo que Pessoa chama de "mecanismos de outrar", isto é, de novas formas de multiplicar os "eus".

Eu tenho algumas críticas importantes a apontar à Sherry Turkle. Há os teóricos maníacos e os teóricos depressivos. Eu classifico-a de teórica maníaca. Eu respeito o trabalho dela, mas acho que ela tem uma imensa fé nos princípios de sociabilização da rede. Ela realmente tem uma mente que conseguiu entender Lacan, Deleuze, Foucault, todas as questões a partir dessa ideia de rede. Ela acredita efectivamente nas net communities. Eu acho isso muito mais complexo e não acredito que, de facto, estejamos preparados ou que faça sentido prepararmo-nos, inclusivé, para viver nesse princípio – que acho imaginário e um pouco perverso – de multiplicação dos "eus". Na verdade, na vida material temos uma subjectividade que é uma pluralidade de formas de ser, que se dobra em função das situações e dos momentos – a própria ideia de liberdade do indivíduo consiste na produção de novas figuras a partir de si mesmo; portanto, a liberdade não está centrada numa identidade permanentemente dada. Ao mesmo tempo, eu acho que essa frequência na rede, usando exemplos da Sherry Turkle, alguém que finge que é uma mulher num chat, que faz de conta que é um homem noutro, que finge que é uma cenoura num terceiro, tem mais um princípio de identidade prêt-à-porter, do que propriamente um princípio de subjectividade. Em todas elas, ele vai ter que ser extremamente coerente em relação à identidade que tiver sugerido. Também parece mais uma espécie de "stock" imaginário de identidades do que propriamente um princípio de subjectivação diferente.

Então onde é que articula a relação, por exemplo, com os anjos, com a questão da angeologia?

A minha questão em relação aos anjos era um pouco diferente. O que eu tentei fazer foi, talvez, uma genealogia dessa relação cristã e da relação com o operador técnico. Eu brinco um pouco com os anjos. Eles são uma espécie de genealogia dos cybers, na medida em que o princípio deles é também um corpo híbrido, entre o Deus e os humanos, e são ainda mensageiros – o próprio do anjo é o facto dele se apagar diante daquilo que traz, ele é um princípio de anúncio, é puro texto. É um pouco nesse sentido que eu coloco a função do ciberespaço como espaço de produção de anúncios de texto, e por conseguinte, em termos de relação corporal, os anjos e os cybers são ambos princípios-mensageiros, entendendo que o corpo inclusivé é um media nesse caso.

Perguntei isso porque estava a pensar nalguns exercícios que existem na Net – aquilo que usualmente é designado de tecno-paganismo – e em que muitos dos sites e muitos dos exercícios que se fazem, e dos livros – há livros publicados sobre o tecno-paganismo de que o mais referido é o de Erik Davis, Technognosis: Myth, magic + mysticism in the age of information (London, Serpent’s Tail, 1998) – vêm muito nesse sentido, isto é, da tentativa de pensar a rede, não apenas como mera rede em termos digitais, mas como uma nova forma de multiplicar as possibilidades de se ser-outra-coisa.

Acho que se põem as duas questões: a que você coloca – evidentemente fala-se mais do que isso - embora eu não consiga analisar, ter dados que me deixem segura para responder, acho que é uma possibilidade. Mas acho também que o primeiro sistema em rede foi a própria religião católica. Ou seja, a ideia da catequese desqualificava a ideia de qual era a origem, a tradição de onde se vinha, a idade, e permitia que qualquer um se tornasse cristão do mesmo modo que qualquer um se torna, hoje, um ciber-habitante, independentemente das relações "originárias".

Na faculdade, estou a acompanhar uma tese muito estranha, porque o candomblé e certas religiões iniciáticas que supostamente são anti-discursivas, estão a construir sites na rede. E então existe um site sobre candomblé – eu acho isto estranhíssimo, porque a religião do candomblé tem uma série de preceitos de iniciação: você sai do mundo, faz a cabeça, tem um Pai-de-Santo, enfim tem uma hierarquia que eu conheço mal…Como é que isto pode ser feito via Net? Parece-me um pouco como o mestre Suzuki quando vai para Londres. Ele deixa de ser o mestre zen; ele é o mestre ocidental. A rede, de um certo modo, elimina um pouco essa diferença nesta promessa de multiplicidade. Na verdade, eu penso mais na rede do que a uso.

Qual é o diagnóstico que faz hoje sobre a relação entre a tecnologia e a experiência actual?

Eu tenho um certo cuidado com o termo diagnóstico. Acho que é um termo muito pesado, porque implica definitivamente o estabelecimento… Não que eu tenha medo de ter uma opinião, mas sim de a levar tão a sério ao ponto de a considerar, de facto, um diagnóstico. Eu direi que, lendo os sintomas do ponto de vista de onde os posso acompanhar, a sensação que tenho é que, hoje em dia, a questão da experiência está muito mais ligada aos princípios, a experimentar as possibilidades de mediação do que a experimentar efectivamente o que se chamava de experiência. Se eu estiver a pensar na arte (e um pouco até influenciada pela tese da Maria Teresa Cruz, de cujo júri participei), acho que hoje o que percebo na arte considerada contemporânea, ou seja, a mais ligada a uma certa investigação, é muito mais a experiência sobre os territórios possíveis de acção dos meios tecnológicos do que propriamente a produção de chamados "mundos possíveis", de novas realidades, de novas experiências. Da mesma forma, acho o hipertexto muito mais uma experiência das possibilidades de link do que propriamente uma experiência literária enquanto o que eu considero a experiência literária: eu costumo achar que o Shakespeare é muito mais interactivo do que qualquer hipertexto.