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De que modo é que
nós podemos conceber hoje a rede, de um modo geral, como
uma nova forma de religiosidade?
Não
só a rede, eu estava a pensar num conjunto, o que chamamos
de sociedade da informação, basicamente a partir de
três ideias: a ideia de uma virtualização absoluta
– e acho que o primeiro modelo de virtualização foi
a ideia de Deus; a ideia de desqualificação do corpo
como lugar da experiência; e, por fim, a ideia de uma dupla
espacialização e de uma dupla ocupação
do espaço ¾ um espaço
infinito onde vivemos a nossa vida material (e eu chamo material
à vida natural mais a prótese) e o espaço ou
o ciber-espaço, que é um outro infinito de uma qualidade,
um infinito qualitativamente diferente, onde, de certo modo, nós
habitamos como bancos de dados. Nesse sentido, é que eu acho
que tem, não exactamente a mesma experiência religiosa,
porque não se trata do contexto religioso, mas um princípio
de, ao mesmo tempo, um certo atractivo espiritual, que alguns teóricos
reconhecem, e segundo, essa ideia de que algumas das promessas que
o modelo cristão fornecia, parece que o suporte técnico
torna, pelo menos, potencialmente possíveis. Por exemplo,
no ciberespaço não se sofre, a dor não consome
o corpo, o arquivo permanece para sempre, tem um princípio
de eternidade… Portanto, uma recuperação técnica
de algumas ideias que nasceram com o operador religioso, não
com o mesmo papel, digamos assim, mas com uma operacionalidade semelhante.
Quando
fala da questão dos anjos e dos "dataspace" , a
questão que pode surgir é: hoje em dia, a partir da
Sherry Turkle e daquilo que ela questiona, a rede pode funcionar
e funciona muito como uma despersonalização. A questão
que fica é a de saber de que modo é que os computadores
e a nova técnica podem funcionar como novo registo daquilo
que Pessoa chama de "mecanismos de outrar", isto é,
de novas formas de multiplicar os "eus".
Eu tenho
algumas críticas importantes a apontar à Sherry Turkle.
Há os teóricos maníacos e os teóricos
depressivos. Eu classifico-a de teórica maníaca. Eu
respeito o trabalho dela, mas acho que ela tem uma imensa fé
nos princípios de sociabilização da rede. Ela
realmente tem uma mente que conseguiu entender Lacan, Deleuze, Foucault,
todas as questões a partir dessa ideia de rede. Ela acredita
efectivamente nas net communities. Eu acho isso muito mais
complexo e não acredito que, de facto, estejamos preparados
ou que faça sentido prepararmo-nos, inclusivé, para
viver nesse princípio – que acho imaginário e um pouco
perverso – de multiplicação dos "eus". Na
verdade, na vida material temos uma subjectividade que é
uma pluralidade de formas de ser, que se dobra em função
das situações e dos momentos – a própria ideia
de liberdade do indivíduo consiste na produção
de novas figuras a partir de si mesmo; portanto, a liberdade não
está centrada numa identidade permanentemente dada. Ao mesmo
tempo, eu acho que essa frequência na rede, usando exemplos
da Sherry Turkle, alguém que finge que é uma mulher
num chat, que faz de conta que é um homem noutro,
que finge que é uma cenoura num terceiro, tem mais um princípio
de identidade prêt-à-porter, do que propriamente
um princípio de subjectividade. Em todas elas, ele vai ter
que ser extremamente coerente em relação à
identidade que tiver sugerido. Também parece mais uma espécie
de "stock" imaginário de identidades do que propriamente
um princípio de subjectivação diferente.
Então onde é que
articula a relação, por exemplo, com os anjos, com
a questão da angeologia?
A minha questão
em relação aos anjos era um pouco diferente. O que
eu tentei fazer foi, talvez, uma genealogia dessa relação
cristã e da relação com o operador técnico.
Eu brinco um pouco com os anjos. Eles são uma espécie
de genealogia dos cybers, na medida em que o princípio
deles é também um corpo híbrido, entre o Deus
e os humanos, e são ainda mensageiros – o próprio
do anjo é o facto dele se apagar diante daquilo que traz,
ele é um princípio de anúncio, é puro
texto. É um pouco nesse sentido
que eu coloco a função do ciberespaço como
espaço de produção de anúncios de texto,
e por conseguinte, em termos de relação corporal,
os anjos e os cybers são ambos princípios-mensageiros,
entendendo que o corpo inclusivé é um media
nesse caso.
Perguntei isso porque estava
a pensar nalguns exercícios que existem na Net – aquilo
que usualmente é designado de tecno-paganismo – e
em que muitos dos sites e muitos dos exercícios que
se fazem, e dos livros – há livros publicados sobre o tecno-paganismo
de que o mais referido é o de Erik Davis, Technognosis:
Myth, magic + mysticism in the age of information (London, Serpent’s
Tail, 1998) – vêm muito nesse sentido, isto é, da tentativa
de pensar a rede, não apenas como mera rede em termos digitais,
mas como uma nova forma de multiplicar as possibilidades de se ser-outra-coisa.
Acho
que se põem as duas questões: a que você coloca
– evidentemente fala-se mais do que isso - embora eu não
consiga analisar, ter dados que me deixem segura para responder,
acho que é uma possibilidade. Mas acho também que
o primeiro sistema em rede foi a própria religião
católica. Ou seja, a ideia da catequese desqualificava a
ideia de qual era a origem, a tradição de onde se
vinha, a idade, e permitia que qualquer um se tornasse cristão
do mesmo modo que qualquer um se torna, hoje, um ciber-habitante,
independentemente das relações "originárias".
Na faculdade,
estou a acompanhar uma tese muito estranha, porque o candomblé
e certas religiões iniciáticas que supostamente são
anti-discursivas, estão a construir sites na rede.
E então existe um site sobre candomblé – eu
acho isto estranhíssimo, porque a religião do candomblé
tem uma série de preceitos de iniciação: você
sai do mundo, faz a cabeça, tem um Pai-de-Santo, enfim tem
uma hierarquia que eu conheço mal…Como é que isto
pode ser feito via Net? Parece-me um pouco como o mestre
Suzuki quando vai para Londres. Ele deixa de ser o mestre zen; ele
é o mestre ocidental. A rede, de um certo modo, elimina um
pouco essa diferença nesta promessa de multiplicidade. Na
verdade, eu penso mais na rede do que a uso.
Qual é o diagnóstico
que faz hoje sobre a relação entre a tecnologia e
a experiência actual?
Eu tenho um
certo cuidado com o termo diagnóstico. Acho que é
um termo muito pesado, porque implica definitivamente o estabelecimento…
Não que eu tenha medo de ter uma opinião, mas sim
de a levar tão a sério ao ponto de a considerar, de
facto, um diagnóstico. Eu direi que, lendo os sintomas do
ponto de vista de onde os posso acompanhar, a sensação
que tenho é que, hoje em dia, a questão da experiência
está muito mais ligada aos princípios, a experimentar
as possibilidades de mediação do que a experimentar
efectivamente o que se chamava de experiência. Se eu estiver
a pensar na arte (e um pouco até influenciada pela tese da
Maria Teresa Cruz, de cujo júri participei), acho que hoje
o que percebo na arte considerada contemporânea, ou seja,
a mais ligada a uma certa investigação, é muito
mais a experiência sobre os territórios possíveis
de acção dos meios tecnológicos do que propriamente
a produção de chamados "mundos possíveis",
de novas realidades, de novas experiências. Da mesma forma,
acho o hipertexto muito mais uma experiência das possibilidades
de link do que propriamente uma experiência literária
enquanto o que eu considero a experiência literária:
eu costumo achar que o Shakespeare é muito mais interactivo
do que qualquer hipertexto.
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