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  As Meninas, de Paula Rego e Agustina Bessa-Luís

  [ anotações de Maria Lucilia Marcos ]

 
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Primeiro, o objecto. O objecto-livro. "Com capa cartonada, miolo em papel PopSet, 170 gr. e composto com caracteres Variex Regular para os títulos e Modern MT Wide para o texto".

"Deste livro fizeram-se dois mil e seiscentos exemplares. Dois mil e cem vão numerados em algarismos árabes. Os restantes estão fora do mercado e constituem edição «Exclusiva da SIC». Todos os exemplares vão rubricados pelas autoras."

A capa cartonada é revestida a tecido-gaze. Verde, áspero, sendo o interior forrado com repetições do rosto da menina que em A Prova experimenta o vestido de baile, de seda azul e balão em pregas e do rosto de Amélia – a mesma Amélia do Crime do Padre Amaro, que Paula Rego trabalhou em O Embaixador de Jesus – que reaparece no quadro O Anjo, "empunhando um gládio, verdadeiramente a figura castradora e redentora ao mesmo tempo, pronta a hostilizar e a perdoar, como explica a esponja na mão esquerda". Estes dois rostos multiplicam-se, sobrepondo festa e luto, claro e escuro, culpa e perdão.

Esta capa é uma crosta que protege o miolo das folhas com as pinturas de Paula Rego e o texto de Agustina Bessa-Luís, cosido em pontos largos e firmes, num amarelado baço, antigo, chamando a memória da infância, levando para casas com sótãos, cozinhas grandes, quintais com galinheiros, rodopio de mães, tias, primas e criadas, cães e galinhas, roupas e fitas, sapatos, brincadeiras, zangas, amuos, olhares…

A domesticidade, a servidão, o tédio, os segredos em murmúrio, as culpas e as desculpas recomeçando sempre, as sombras nos quartos, os lugares de chegada para ficar e às vezes de chegada para partir. As Meninas-mulheres e as Meninas-crianças com gestos repetidos, que umas ensinam e as outras aprendem, com manhas, com medos, com mistérios, com esperas.

Segundo, este objecto-livro parece-se então com a escrita e com os desenhos que nele se imprimiram.

"O desenho de Paula é uma escrita. O desenho é uma pronúncia, como a da fala. Tudo aparece no desenho da escrita", escreve Agustina. Neste livro, lentamente desdobram-se as pregas da vida de menina, das Meninas, e as duas, Paula e Agustina, estão lá. Num mundo perverso e encantado, onde as Meninas se espreguiçam, sonham, sentem vertigens e cometem maldades, são puras e são cruéis, batem o pé e choram, ouvem falar de pecado e assustam-se. "A obra de Paula é autobiográfica, mas é sobretudo assustadora. Ela é assustadora." O desenho escreve os sustos com pronúncia de medo, o desenho domestica os riscos tal como as Meninas domam o cão, mas eles, os riscos, continuam a existir. É preciso saber as coisas proibidas, é preciso conspirar, é preciso ser perigoso. "As Meninas são profundamente perigosas".

Terceiro, que é primeiro e é segundo, as Meninas. ("Não se sabe se alguma vez Paula Rego teve qualquer preferência subjectiva ao ver o quadro de Vélàsquez As Meninas.") Elas, as de Paula Rego, pronunciam a tradição, mas com ganas de a exterminar, são corajosas mas não temem ser cobardes, acarinham o cão mas infligem-lhe torturas, servem e castigam, vão pé-ante-pé e desatam a chorar.

Mas, sobretudo, as Meninas têm rostos marcados, olhos imensos, feições fortes, têm pés de homem, grandes e torneados, têm mãos longas, robustas e decididas. Rostos, pés e mãos excessivos, exuberantes. A doçura não lhes vem das formas, mas da desordem em que vivem, da domesticidade que as envolve e do descampado que pisam. Há nas Meninas submissão misturada de autoridade, elas estão presas nos limites da casa mas são vigorosas no que fazem. Elas dão ao medo uma face de animação e pôem cor de provocação na incerteza dos dias.

Agustina diz que são atrevidas as reflexões que faz sobre Paula Rego, mas que não valeria a pena escrever de outro modo. Mas o autobiográfico é aqui universal, o feminino é aqui também masculino, a infância é aqui também idade madura. A beleza de As Meninas está num infinito que excede qualquer dito sobre elas, e que pede um folhear de novo, para as salvar e para as perder. Porque a salvação aqui será sempre perda.