trans.gif (43 bytes) trans.gif (43 bytes)

  Notas sobre "Charm" (2001) de Julião Sarmento

  [ Maria Teresa Cruz ]

trans.gif (43 bytes)
voltar
trans.gif (43 bytes)

 

 

 


"Charm" (2001)

Por toda a parte se pode confirmar um encontro fundamental da cultura moderna:o encontro entre a imagem e o corpo. Na fotografia, na televisão, no cinema, no video, os corpos desmultiplicam-se em imagens e convivem assim quotidianamente, domesticamente, intimamente e universalmente com a população do planeta. Não é estranho, pois, que os próprios corpos vivam cada vez mais imaginariamente a sua história, a sua identidade e as suas relações, como se fossem eles mesmos animados por essa vida imaginária das imagens do corpo. A imagem, outrora pensada como alma roubada aos corpos, retorna agora a esses corpos como catálogo de figuras, inspirando as suas formas de aparência e de expressão, os seus movimentos, as suas inclinações e afecções.
Estas imagens, que os primeiros modernos começaram por pensar como desdobramentos insólitos, como fantasmas que vagueavam estranhamente desencontrados dos corpos, parecem ter reencontrado, assim, uma via de retorno a eles, participando intimanente da sua vida e dos seus sonhos. Se se desligassem hoje, repentinamente, as máquinas contemporâneas de produção de imagens, muitos corpos ficariam talvez desalentados, como se tivessem sido abandonados pela própria alma, ou por aquilo que anima os seus movimentos e alimenta as suas paixões. O excesso de imagens, repete-nos desde há muito a crítica da cultura de massas, faz vítimas crescentes de geração para geração, (vítimas culturais e ideológicas, ileteracia, deformação das consciências, senão mesmo quase "mortes cerebrais"), mas não é menos certo que uma dieta forçada ou um súbito "black-out" de imagens não fizesse os pacientes morrerem da cura, antes mesmo de revelarem quaisquer melhoras. O que significa que a vida parece revelar, hoje, um quase mistério de consustancialidade com a imagem.
A imagem ganhou, a partir da fotografia, uma intimidade quase absoluta com o corpo. A captura a que os corpos estão votados, depois dela, parece não conhecer limites: toda a superfíce, mas também as entranhas, todas as partes e todo o sexo, todas as poses, todos os gestos, e até os fluídos e o sangue. O corpo é certamente um dos objectos mais intensamente escrutinados pela imagem moderna. A "mise à nu" do corpo pela imagem poderá também dizer-se "par ses célibataires même", expoliados, de algum modo, desse corpo que julgavam próprio e que representava um lugar de absoluta individualidade, intimidade e abrigo. A despossessão do corpo pela imagem e o retorno ao corpo desta imagem a ele arrancada, para de novo o animar, estimular e fazê-lo mover-se, compõe o essencial da kinesis ou do cinematismo moderno, que é pois bem mais do que o mero cinema, como suspeitou Deleuze. Esta kinesis permanece, como dizia Aristóteles, a "actualização de uma potencialidade" (não se sabe bem se exterior se interior aos corpos) que já recebeu o nome de psique. Este corpo infinitamente despossuído e possuído pela imagem, compõe um ciclo maior da vida moderna, que experimentamos quotidianamente, em serões simultaneamente vampíricos e alimentícios, quando, por exemplo, ligamos a televisão.