Por toda a parte se pode confirmar
um encontro fundamental da cultura moderna:o encontro entre a
imagem e o corpo. Na fotografia, na televisão, no cinema,
no video, os corpos desmultiplicam-se em imagens e convivem assim
quotidianamente, domesticamente, intimamente e universalmente
com a população do planeta. Não é
estranho, pois, que os próprios corpos vivam cada vez mais
imaginariamente a sua história, a sua identidade e as suas
relações, como se fossem eles mesmos animados por
essa vida imaginária das imagens do corpo. A imagem, outrora
pensada como alma roubada aos corpos, retorna agora a esses corpos
como catálogo de figuras, inspirando as suas formas de
aparência e de expressão, os seus movimentos, as
suas inclinações e afecções.
Estas imagens, que os primeiros modernos começaram por
pensar como desdobramentos insólitos, como fantasmas que
vagueavam estranhamente desencontrados dos corpos, parecem ter
reencontrado, assim, uma via de retorno a eles, participando intimanente
da sua vida e dos seus sonhos. Se se desligassem hoje, repentinamente,
as máquinas contemporâneas de produção
de imagens, muitos corpos ficariam talvez desalentados, como se
tivessem sido abandonados pela própria alma, ou por aquilo
que anima os seus movimentos e alimenta as suas paixões.
O excesso de imagens, repete-nos desde há muito a crítica
da cultura de massas, faz vítimas crescentes de geração
para geração, (vítimas culturais e ideológicas,
ileteracia, deformação das consciências, senão
mesmo quase "mortes cerebrais"), mas não é
menos certo que uma dieta forçada ou um súbito "black-out"
de imagens não fizesse os pacientes morrerem da cura, antes
mesmo de revelarem quaisquer melhoras. O que significa que a vida
parece revelar, hoje, um quase mistério de consustancialidade
com a imagem.
A imagem ganhou, a partir da fotografia, uma intimidade quase
absoluta com o corpo. A captura a que os corpos estão votados,
depois dela, parece não conhecer limites: toda a superfíce,
mas também as entranhas, todas as partes e todo o sexo,
todas as poses, todos os gestos, e até os fluídos
e o sangue. O corpo é certamente um dos objectos mais intensamente
escrutinados pela imagem moderna. A "mise à nu"
do corpo pela imagem poderá também dizer-se "par
ses célibataires même", expoliados, de algum
modo, desse corpo que julgavam próprio e que representava
um lugar de absoluta individualidade, intimidade e abrigo. A despossessão
do corpo pela imagem e o retorno ao corpo desta imagem a ele arrancada,
para de novo o animar, estimular e fazê-lo mover-se, compõe
o essencial da kinesis ou do cinematismo moderno, que é
pois bem mais do que o mero cinema, como suspeitou Deleuze. Esta
kinesis permanece, como dizia Aristóteles, a "actualização
de uma potencialidade" (não se sabe bem se exterior
se interior aos corpos) que já recebeu o nome de psique.
Este corpo infinitamente despossuído
e possuído pela imagem, compõe um ciclo maior
da vida moderna, que experimentamos quotidianamente, em serões
simultaneamente vampíricos e alimentícios, quando,
por exemplo, ligamos a televisão.