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  Notas sobre "Charm" (2001) de Julião Sarmento

  [ Maria Teresa Cruz ]

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"Charm" (2001)

A intimidade entre o corpo e a imagem é um dado curiosamente comum à cultura dos media ou à cultura de massas e às mais vanguardistas e críticas manifestações da arte moderna e contemporânea. Em ambas, corpo e imagem traficam entre si figuras e forças. Num ensaio recente, Teresa Macrì (1998) mostra o quanto o cinema de artista (nos seus termos "o cinematismo de artista") é um "cinema-corpo", que investe sobretudo no corpo, como "totalidade atractiva e produção de intensidade". Nos muitos exemplos que reune cabe uma referência extensa e justa à obra de Julião Sarmento, onde a imagem do corpo está continuamente presente, segundo uma lógica que já pouco tem a ver com a representação ou mesmo com as suas perturbações, mas antes com as forças que a atravessam. Como diz Teresa Macrì "um cinema sensual (...) táctil e pulsional que mete em jogo todos os dispositivos que circunscrevem a sedução".
Na sua grande maioria, a obra de Julião Sarmento apresenta-nos imagens de mulheres, extraídas dos seus corpos por um olhar que não é neutro, que captura e persegue, que detalha e toma posse. O cinematismo da sua obra vive pois, não apenas do movimento das imagens (presente nos seus filmes) mas, sobretudo, dos movimentos do desejo, isto é, dos movimentos subterrâneos de possessão e despossessão entre corpos e imagens. Na sua pintura e nas suas fotografias estes corpos encontram-se aliás numa espécie de suspensão tensa de um movimento externo ou interno que apenas se adivinha. E contudo o cinema impregna toda a sua obra, como várias vezes tem afirmado o próprio autor. O "cinema" de Julião Sarmento reflecte antes demais a cinética que a experiência moderna dissemina por todo o lado, com a perseguição que se fazem mutuamente os corpos e as imagens, e que os media quase automatizaram já. "O que me interessa no movimento de uma pessoa não é a pessoa que se desloca daqui para ali, mas antes o facto de que eu olho furtivamente ao lado. (..) Trata-se sempre de um resultado de uma relação entre um e o outro, (...) nunca de nada objectivo. Uma mulher seduzida. (...) é um processo mental subtil" (JS). A imagem da mulher em Julião Sarmento é uma "dona mobile", não tanto por ser posta em filme, mas por participar dos subterrâneos movimentos da sedução.
"Charm" (instalação video interactiva, recentemente apresentada em "A Experiência do Lugar" - Porto 2001), surpreende pelo carácter aparentemente neutro das suas imagens. Sentada a uma mesa, uma mulher, lê um texto olhando de frente a câmara. A situação faz lembrar um qualquer momento informativo da programação televisiva. O olhar fixo, a voz insinunate, e o conteúdo erótico do texto, explicitam contudo, surpreendentemente, quase paradoxalmente, o desafio de uma ligação erótica à imagem, onde, não estão presentes, porém quaisquer elementos de uma iconografia erótica. A ambiguidade deste contraste transforma-se num poderoso mecanismo de analítica do desejo e da relação deste dispositivo com o próprio dispositivo tecnológido dos media, com as suas formas de gestão da distracção e da atracção, aqui sublinhadas pelo dispositivo interactivo da instalação.