A intimidade entre o corpo e a imagem
é um dado curiosamente comum à cultura dos media
ou à cultura de massas e às mais vanguardistas e
críticas manifestações da arte moderna e
contemporânea. Em ambas, corpo e imagem traficam entre si
figuras e forças. Num ensaio recente, Teresa Macrì
(1998) mostra o quanto o cinema de artista (nos seus termos "o
cinematismo de artista") é um "cinema-corpo",
que investe sobretudo no corpo, como "totalidade atractiva
e produção de intensidade". Nos muitos exemplos
que reune cabe uma referência extensa e justa à obra
de Julião Sarmento, onde a imagem do corpo está
continuamente presente, segundo uma lógica que já
pouco tem a ver com a representação ou mesmo com
as suas perturbações, mas antes com as forças
que a atravessam. Como diz Teresa Macrì "um cinema
sensual (...) táctil e pulsional que mete em jogo todos
os dispositivos que circunscrevem a sedução".
Na sua grande maioria, a obra de Julião Sarmento apresenta-nos
imagens de mulheres, extraídas dos seus corpos por um olhar
que não é neutro, que captura e persegue, que detalha
e toma posse. O cinematismo da sua obra vive pois, não
apenas do movimento das imagens (presente nos seus filmes) mas,
sobretudo, dos movimentos do desejo, isto é, dos movimentos
subterrâneos de possessão e despossessão entre
corpos e imagens. Na sua pintura e nas suas fotografias estes
corpos encontram-se aliás numa espécie de suspensão
tensa de um movimento externo ou interno que apenas se adivinha.
E contudo o cinema impregna toda a sua obra, como várias
vezes tem afirmado o próprio autor. O "cinema"
de Julião Sarmento reflecte antes demais a cinética
que a experiência moderna dissemina por todo o lado, com
a perseguição que se fazem mutuamente os corpos
e as imagens, e que os media quase automatizaram já. "O
que me interessa no movimento de uma pessoa não é
a pessoa que se desloca daqui para ali, mas antes o facto de que
eu olho furtivamente ao lado. (..) Trata-se sempre de um resultado
de uma relação entre um e o outro, (...) nunca de
nada objectivo. Uma mulher seduzida. (...) é um processo
mental subtil" (JS). A imagem da mulher em Julião
Sarmento é uma "dona mobile", não tanto
por ser posta em filme, mas por participar dos subterrâneos
movimentos da sedução.
"Charm" (instalação video interactiva,
recentemente apresentada em "A
Experiência do Lugar" - Porto 2001), surpreende
pelo carácter aparentemente neutro das suas imagens. Sentada
a uma mesa, uma mulher, lê um texto olhando de frente a
câmara. A situação faz lembrar um qualquer
momento informativo da programação televisiva. O
olhar fixo, a voz insinunate, e o conteúdo erótico
do texto, explicitam contudo, surpreendentemente, quase paradoxalmente,
o desafio de uma ligação erótica à
imagem, onde, não estão presentes, porém
quaisquer elementos de uma iconografia erótica. A ambiguidade
deste contraste transforma-se num poderoso mecanismo de analítica
do desejo e da relação deste dispositivo com
o próprio dispositivo tecnológido dos media, com
as suas formas de gestão da distracção e
da atracção, aqui sublinhadas pelo dispositivo interactivo
da instalação.