A importância da ligação
entre as imagens e o corpo, está possivelmente em correspondência
com um outro encontro fundamental na vida moderna: o encontro
entre a imagem e o desejo. A suspeita de que não há
desejo sem fantasma, inspirou não apenas uma dada visão
da vida psíquica, mas também da cultura e da economia,
em geral, mostrando que tudo depende, como dizia Klossovski (1970)
da "fabricação eficaz do simulacro". Tanto
o "aparato psíquico" (como dizia Freud)
quanto os mecanismos económicos e sociais da produção
e do consumo industriais participariam de um mesmo dispositivo,
onde os afectos e os impulsos, a voluptuosidade e o prazer entrariam
como variáveis determinantes na fixação do
valor e das trocas, mediante essa fabricação
eficiente de um simulacro.
Este dispositivo, que pode receber o nome de erotismo, produz
agora uma espécie de economia geral, responsável
por um certo espírito do tempo. Falando de um "pan-erotismo"
contemporâneo, Herberto Helder (1995) descreve-o como uma
"atmosfera difusa, mas intensa de íntima vibração",
onde todo "o objecto ganha uma importância insidiosa".
É função principal deste dispositivo fazer
com que todo o objecto se torne erótico e toda a promessa
de prazer um bem ou um objecto. E o seu operador mais eficaz parece
ser de facto a imagem. Não há agente económico,
cultural e de comunicação que não pareça
hoje consicente desse facto, ao mesmo tempo que cresce também
a consciência crítica deste dispositivo (distinta
do mero desmascaramento moralista que alguns sempre lhe dedicaram).
É quase possível dizer que o erotismo está
na moda. O tema assume aliás algum protagonismo no forum
da cultura mais elevada, da arte, dos debates intelectuais e da
edição.
Algumas décadas atrás a temática do desejo
(fortemente influenciada pela visão da psicanálise,
desde o início do século) exigia, junto de uma geração
influente de intelectuais, o seu pleno reconhecimento no seio
da cultura e da vida. Na verdade, muito parece ter dependido de
uma certa fixação, aparentemente libertadora, no
dipositivo do desejo, mas que prolongava afinal certos impasses
da pensamento ociedental sobre a sexualidade, como procurariam
mostrar alguns (por exemplo, Deleuze, Guatari e Foucault). A ligação
da sexulaidade e do prazer à ideia de uma falta incolmatável,
na qual a psicanálise insistira, coloca o próprio
preenchimento do desejo e o prazer como uma espécie de
limite inatingível e constitutivo da própria cultura..
Daí que pareça necessária uma crítica
da noção de desejo, como aquela que Foucault realiza
na sua História da sexualidade, para quem esta estrutura
é precisamente o que inviabiliza a existência de
uma erótica, com a sua iniciação e a sua
techne, isto é, o "uso dos prazeres" como
integrando efectivamente uma "tecnica de si" ou dos
modo da subjectivação.
Mais do que votada aos prazeres a cultura moderna parece assim
lançada na fantasmagoria do desejo, na "produção
da sugestão", como dizia Klossovski (1970) ou na "promessa"
de um prazer que simultaneamente reprime, como notava já
Adorno a respeito da "indústria da cultura" (1947).
A troca, nesta economia erotizada (dos prazeres prometidos) resume-se
à comunicação generalizada dos simulacros
e, o valor ,à quantidade de força pulsional que
estes simulcros permitem investir e retraduzir em factor económico.
Este investimento da força pulsional não representa
contudo um valor de uso (ou um prazer) , mas apenas a matéria
do fantasma.
A exploração técnica e industrial da economia
do erotismo e do simulacro "será capaz - como previa
Klossovski - de standardizar a sugestão a baixo preço",
isto é, de ofercer, em simulacro, as sensações
e as emoções, sem contacto com o seu "objecto
vivo", assim como um simulacro de tempo livre ou de tempo
de fruição, para as consumir. A afecção
torna-se a moeda corrente desta economia, ao mesmo tempo que os
objectos vivos da sua experiência - os homens e as
mulheres - parecem manter-se não implicados e "fora
de preço". Klossovski levanta porém a suspeita
de que esta moeda é sustentada por uma outra - uma "moeda
viva" - onde os produtores da sugestão
se fazem efectivamente "pagar em mulheres" e "em
homens". No seu extracto visível e comunicável
tudo parece não ser senão imagem, fantasmagoria
ou "sexapeal da mercadoria" (como dizia Benjamin), consumívieis
genéricos e gratuitos da sociedade da comunicação,
afinal sem carne. Mas, sob esta aparente sociedade simulacral
da comunicação podemos talvez, como exercício,
fazer pender uma suspeita radical - a de Sade - segundo a qual
os homens e as mulheres só podem comunicar entre si mediante
a propriedade e o uso, como objectos efectivamente trocáveis.
Uma certa tradição literata entreteve-se durante
algum tempo a reflectir quantas palavras valia ou não valia
uma imagem; poderemos igualmente entreter-nos a especular quanto
material vivo é consumido na circulação de
uma imagem, de uma imagem usufruível de um corpo.