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  Notas sobre "Charm" (2001) de Julião Sarmento

  [ Maria Teresa Cruz ]

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"Charm" (2001)

A importância da ligação entre as imagens e o corpo, está possivelmente em correspondência com um outro encontro fundamental na vida moderna: o encontro entre a imagem e o desejo. A suspeita de que não há desejo sem fantasma, inspirou não apenas uma dada visão da vida psíquica, mas também da cultura e da economia, em geral, mostrando que tudo depende, como dizia Klossovski (1970) da "fabricação eficaz do simulacro". Tanto o "aparato psíquico" (como dizia Freud) quanto os mecanismos económicos e sociais da produção e do consumo industriais participariam de um mesmo dispositivo, onde os afectos e os impulsos, a voluptuosidade e o prazer entrariam como variáveis determinantes na fixação do valor e das trocas, mediante essa fabricação eficiente de um simulacro.
Este dispositivo, que pode receber o nome de erotismo, produz agora uma espécie de economia geral, responsável por um certo espírito do tempo. Falando de um "pan-erotismo" contemporâneo, Herberto Helder (1995) descreve-o como uma "atmosfera difusa, mas intensa de íntima vibração", onde todo "o objecto ganha uma importância insidiosa". É função principal deste dispositivo fazer com que todo o objecto se torne erótico e toda a promessa de prazer um bem ou um objecto. E o seu operador mais eficaz parece ser de facto a imagem. Não há agente económico, cultural e de comunicação que não pareça hoje consicente desse facto, ao mesmo tempo que cresce também a consciência crítica deste dispositivo (distinta do mero desmascaramento moralista que alguns sempre lhe dedicaram). É quase possível dizer que o erotismo está na moda. O tema assume aliás algum protagonismo no forum da cultura mais elevada, da arte, dos debates intelectuais e da edição.
Algumas décadas atrás a temática do desejo (fortemente influenciada pela visão da psicanálise, desde o início do século) exigia, junto de uma geração influente de intelectuais, o seu pleno reconhecimento no seio da cultura e da vida. Na verdade, muito parece ter dependido de uma certa fixação, aparentemente libertadora, no dipositivo do desejo, mas que prolongava afinal certos impasses da pensamento ociedental sobre a sexualidade, como procurariam mostrar alguns (por exemplo, Deleuze, Guatari e Foucault). A ligação da sexulaidade e do prazer à ideia de uma falta incolmatável, na qual a psicanálise insistira, coloca o próprio preenchimento do desejo e o prazer como uma espécie de limite inatingível e constitutivo da própria cultura.. Daí que pareça necessária uma crítica da noção de desejo, como aquela que Foucault realiza na sua História da sexualidade, para quem esta estrutura é precisamente o que inviabiliza a existência de uma erótica, com a sua iniciação e a sua techne, isto é, o "uso dos prazeres" como integrando efectivamente uma "tecnica de si" ou dos modo da subjectivação.
Mais do que votada aos prazeres a cultura moderna parece assim lançada na fantasmagoria do desejo, na "produção da sugestão", como dizia Klossovski (1970) ou na "promessa" de um prazer que simultaneamente reprime, como notava já Adorno a respeito da "indústria da cultura" (1947). A troca, nesta economia erotizada (dos prazeres prometidos) resume-se à comunicação generalizada dos simulacros e, o valor ,à quantidade de força pulsional que estes simulcros permitem investir e retraduzir em factor económico. Este investimento da força pulsional não representa contudo um valor de uso (ou um prazer) , mas apenas a matéria do fantasma.
A exploração técnica e industrial da economia do erotismo e do simulacro "será capaz - como previa Klossovski - de standardizar a sugestão a baixo preço", isto é, de ofercer, em simulacro, as sensações e as emoções, sem contacto com o seu "objecto vivo", assim como um simulacro de tempo livre ou de tempo de fruição, para as consumir. A afecção torna-se a moeda corrente desta economia, ao mesmo tempo que os objectos vivos da sua experiência - os homens e as mulheres - parecem manter-se não implicados e "fora de preço". Klossovski levanta porém a suspeita de que esta moeda é sustentada por uma outra - uma "moeda viva" - onde os produtores da sugestão se fazem efectivamente "pagar em mulheres" e "em homens". No seu extracto visível e comunicável tudo parece não ser senão imagem, fantasmagoria ou "sexapeal da mercadoria" (como dizia Benjamin), consumívieis genéricos e gratuitos da sociedade da comunicação, afinal sem carne. Mas, sob esta aparente sociedade simulacral da comunicação podemos talvez, como exercício, fazer pender uma suspeita radical - a de Sade - segundo a qual os homens e as mulheres só podem comunicar entre si mediante a propriedade e o uso, como objectos efectivamente trocáveis. Uma certa tradição literata entreteve-se durante algum tempo a reflectir quantas palavras valia ou não valia uma imagem; poderemos igualmente entreter-nos a especular quanto material vivo é consumido na circulação de uma imagem, de uma imagem usufruível de um corpo.