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  Notas sobre "Charm" (2001) de Julião Sarmento

  [ Maria Teresa Cruz ]

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"Charm" (2001)

"Charm" (instalação video interactiva, recentemente apresentada em "A Experiência do Lugar" - Porto 2001) lança diversas questões interessantes sobre uma economia erótica contemporânea, mantendo nisso a consistência temática que caracteriza toda a sua obra, e que se tem caracterizado por uma espécie de persistente analítica do desejo. Subvertendo contudo uma opção maioritária dos seus trabalhos anteriores, "Charm" não se centra na mulher como objecto de sedução, ou na mulher seduzida. A inversão do papel da mulher, ou a afirmação do seu papel activo e directo, no próprio jogo da sedução, a aludir a uma certa faceta da "revolução sexual" moderna, não é porém o traço verdadeiramente importante ou surpreendente da cena que aqui se monta.
Mais importante (do que a parente subversão da relação erótica mediante uma inversão do papel dos géneros), parece ser, em "Charm", todo o contexto em que estas imagens são apresentadas: o monitor video, interrompendo as lombadas dos livros de uma estante de biblioteca, dispara um discurso de assédio directo ao visitante, mediante a detecção da sua aproximação, por um sensor. "Charm" parece assim aludir à retradução da relação erótica pelo dispositivo da comunicação, à sua economia da "sugestão", ao assédio constitutivo das máquinas afeccionais modernas, à sua incitação à ligação e à fixação, e ao modo como estas figuras tomam crescentemente conta do que gostamos de chamar "a cultura", a qual sempre preferiu pensar-se como distância crítica, com um máximo de transe na contemplação, e um máximo de ligação no intervenção ou no engagement.
Embora seja um facto que a moeda corrente da economia erótica é sobretudo a de imagens de mulheres (e que tal é um não acaso histórico), é talvez pouco relevante, aqui, a figura aparentemente vingadora de uma mulher que exige um "pagamento em homens", (como dizia Klossovsky). Lacan, afirmava, provocatoriamente, que não existe tal coisa como uma "relação sexual" (o que parece tornar a presença e o género algo irrelevantes), como não existe também possivelmente uma relação erótica, o que denuncia, antes de mais a insuficiência, senão mesmo a inadequação da noção de "relação" para dizer a ligação que ocorre mediante a actividade fantasmática do desejo e os seus movimentos de atracção. O dispositivo erótico, à qual as máquinas comnicacionais dão uma nova consistência técnológica, parece necessitar, menos ainda, de distinguir entre corpos e imagens, entre presença e ausência e entre real e imaginário. No conjunto, essas máquinas promovem a circulação e a transitividade do desejo, impulsionando constantemente a nossa ligação a esse trânsito infindável dos simulacros. No arrastamento das ligações físicas, eléctricas e eléctrónicas, dos televisores, dos videos, dos computadores, ..., um dispositivo mais invisível ainda de ligações, que a própria cultura foi montando, e que poderíamos dizer "meta-físicas", assegura o estado continuamente "on" (ou ligado) desta ecomia que articula desejo e simulacro, ou, como diz Herberto Helder (1995), "o delicado e trágico destino do desejo que encontrou a metáfora erótica do transe, do trânsito".