"Charm" (instalação
video interactiva, recentemente apresentada em "A
Experiência do Lugar" - Porto 2001) lança
diversas questões interessantes sobre uma economia erótica
contemporânea, mantendo nisso a consistência temática
que caracteriza toda a sua obra, e que se tem caracterizado por
uma espécie de persistente analítica do desejo.
Subvertendo contudo uma opção maioritária
dos seus trabalhos anteriores, "Charm" não
se centra na mulher como objecto de sedução, ou
na mulher seduzida. A inversão do papel da mulher, ou a
afirmação do seu papel activo e directo, no próprio
jogo da sedução, a aludir a uma certa faceta da
"revolução sexual" moderna, não
é porém o traço verdadeiramente importante
ou surpreendente da cena que aqui se monta.
Mais importante (do que a parente subversão da relação
erótica mediante uma inversão do papel dos géneros),
parece ser, em "Charm", todo o contexto em que
estas imagens são apresentadas: o monitor video, interrompendo
as lombadas dos livros de uma estante de biblioteca, dispara um
discurso de assédio directo ao visitante, mediante a detecção
da sua aproximação, por um sensor. "Charm"
parece assim aludir à retradução da relação
erótica pelo dispositivo da comunicação,
à sua economia da "sugestão", ao assédio
constitutivo das máquinas afeccionais modernas, à
sua incitação à ligação e à
fixação, e ao modo como estas figuras tomam crescentemente
conta do que gostamos de chamar "a cultura", a qual
sempre preferiu pensar-se como distância crítica,
com um máximo de transe na contemplação,
e um máximo de ligação no intervenção
ou no engagement.
Embora seja um facto que a moeda corrente da economia erótica
é sobretudo a de imagens de mulheres (e que tal é
um não acaso histórico), é talvez pouco relevante,
aqui, a figura aparentemente vingadora de uma mulher que exige
um "pagamento em homens", (como dizia Klossovsky). Lacan,
afirmava, provocatoriamente, que não existe tal coisa como
uma "relação sexual" (o que parece
tornar a presença e o género algo irrelevantes),
como não existe também possivelmente uma relação
erótica, o que denuncia, antes de mais a insuficiência,
senão mesmo a inadequação da noção
de "relação" para dizer a ligação
que ocorre mediante a actividade fantasmática do desejo
e os seus movimentos de atracção. O dispositivo
erótico, à qual as máquinas comnicacionais
dão uma nova consistência técnológica,
parece necessitar, menos ainda, de distinguir entre corpos
e imagens, entre presença e ausência e entre
real e imaginário. No conjunto, essas máquinas promovem
a circulação e a transitividade do desejo, impulsionando
constantemente a nossa ligação a esse trânsito
infindável dos simulacros. No arrastamento das ligações
físicas, eléctricas e eléctrónicas,
dos televisores, dos videos, dos computadores, ..., um dispositivo
mais invisível ainda de ligações, que a própria
cultura foi montando, e que poderíamos dizer "meta-físicas",
assegura o estado continuamente "on" (ou ligado)
desta ecomia que articula desejo e simulacro, ou, como diz Herberto
Helder (1995), "o delicado e trágico destino do desejo
que encontrou a metáfora erótica do transe, do trânsito".