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  David Lyon, Surveillance society - Monitoring everyday life (2001)

  [ Graça Rocha Simões ]

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David Lyon, Surveillance society - Monitoring everyday life, Buckingham/Philadelphia, Open University Press, 2001, 189 pp.

"Subitamente, verificamos que alguém ou alguma coisa nos vigia.. Estamos num bar saboreando tranquilamente uma bebida, quando vemos a pequena câmara, observando discretamente a cena. Porque é que a câmara nos observa ? Somos uma ameaça para o ordem pública? Num outro contexto, estamos cheios de pressa e acelaramos no semáforo prestes a mudar de verde para vermelho, pensando erradamente que temos o tempo suficiente para passar antes que caia o sinal. Dias depois, uma multa aparece no correio. Estes acontecimentos acontecem, com crescente frequência, e habitualmente damo-los por adquiridos. A vida de todos os dias é sujeita a monitorização, verificação, escrutínio. É difícil encontrar um lugar, ou uma actividade, que esteja protegida ou salvaguardada de um qualquer dispositivo orientado para localizar, seguir, ouvir, observar, registar e verificar." (p.1)

As câmaras de vídeo nas estradas, nas ruas, nos centros comerciais e nos aeroportos são apenas uma parte dos múltiplos mecanismos e processos de vigilância citados por David Lyon ao longo deste livro, cujo tema é precisamente a vigilância nas sociedades dependentes, em quase todas as esferas de actividade, das tecnologias da informação e da comunicação.

De facto, vivemos hoje numa espécie de sociedade de vigilância, uma sociedade onde a informação acerca das nossas vidas é compilada por todo o tipo de organizações.

Publicado em 2001, Surveillance Society é a consequência brilhantemente coerente de um trabalho de investigação e reflexão que Lyon vem desenvolvendo nos últimos anos. O seu livro anterior The Electronic Eye: The Rise of Surveillance Society (Minneapolis; University of Minnesota Press, 1994) deve ser lido em conjunto com este, numa complementaridade que o próprio autor sublinha.

Publicado em 2001, mas antes do 11 de Setembro. O que torna a reflexão em torno dos dispositivos de vigilância e controlo da vida privada e social ainda mais actual, num momento em que assistimos a um esbatimento das barreiras de preservação da privacidade e liberdade individual ainda existentes justificado agora social e politicamente pela óbvia necessidade de protecção em relação ao horror que, ficou demonstrado, nos pode afectar a todos. David Lyon não poderia ficar em silêncio após estes recentes acontecimentos e por isso o texto publicado na Net, Terrorism and Surveillance, em Novembro de 2001 ( e que a Interact dá a ler neste número).

Importa desde já definir de que vigilância fala o sociólogo David Lyon. Trata-se da actividade de obtenção de qualquer colecção de dados pessoais, e respectivo processamento, identificáveis ou não, com o objectivo de influenciar ou gerir aqueles cujos dados foram recolhidos. As tecnologias baseadas, sustentadas e possíveis a partir do computador, da computação e recentemente das redes expandiram exponencialmente as tecnologias da vigilância e são centrais nos processos de vigilância. Com a Internet e a vigilância no ciberespaço, nomeadamente, os processos de vigilância ganharam contornos específicos antes desconhecidos mas hoje parte integrante da sociedade da vigilância.

O livro organiza-se em três partes : I) Sociedades da vigilância, II) A expansão da vigilância e III) Cenários para a vigilância

Na Parte I, o cenário geral da sociedade da vigilância é definido : a progressiva abstracção das relações sociais, a não predominância dos contactos face-a-face, a intervenção progressiva da mediação de interfaces, o desaparecimento dos corpos, características da sociedade contemporânea sustentadas e potenciadas por infraestruturas de informação globalizantes e definidoras de quadros invisíveis e comuns que dão consistência ao conjunto planetário das actividades de vigilância. Se outrora os dados pessoais recolhidos por instâncias várias eram objecto de relativa reserva e não cruzamento, actualmente esses contentores de informação (leaky containers) deixam "escoar" essa informação com consequências que justificam o uso do conceito de "sociedade da vigilância".

Na Parte II, os desenvolvimentos da sociedade da vigilância são analisados em três dimensões : a cidade como espaço e lugar privilegiado de vigilância, o corpo humano como fonte de dados e a globalização da vigilância, nomeadamente tendo em conta a circulação global dos fluxos de dados.

Finalmente, na Parte III, David Lyon 1) empreende o esforço de reorganizar as teorias e modelos que possam permitir analisar e explicar a sociedade da vigilância e propõe novas formas para o fazer; 2) discute os problemas da regulação e resistência à vigilância e 3) define a vigilância como uma característica central da sociedade da informação pós-moderna e global.

Formalmente organizada desta forma, a reflexão de Lyon centra-se nuclearmente em quatro conceitos, temas, dimensões de reflexão, âncoras de análise que vão repassando permanentemente ao longo de todo o texto : coordenação, risco, privacidade e poder.

Do Big Brother ao panóptico electrónico David Lyon articula magistralmente no tratado teórico que nos propõe, e agarrando-nos literalmente ao texto, as esferas sociológica, política e ética. Mas faz mais, o que não é vulgar. Propõe modos de vivência nesta sociedade da vigilância, desmesurada, tentacular, "perigosa. Se nos surpreende e reconforta vermos um autor que não se queda na análise, suspendemo-nos face às suas propostas: afirmar o nosso valor de pessoas com corpo ( re-embodying persons ); auto-revelação voluntária (self-disclosure); preocupação com o Outro/ cuidar do Outro( care for the Other). Propostas que ganham todo o seu sentido quando :

"Perguntar o que aconteceria se a vigilância fosse orientada por uma ontologia da paz em vez da violência, uma ética do cuidado em vez do controlo, uma orientação para o perdão em vez de suspeição, pode parecer uma alternativa fraca. Mas fraca em que sentido ?" (p. 153)

Se a nossa surpresa é da ordem da forma como grande parte dos investigadores dão conta das suas reflexões sem que um " e depois ?" tenha resposta, o que obrigaria a grande coragem e certeza que nem sempre existe, e por isso, sendo desejável não formalmente obrigatória, a nossa suspensão releva seguramente de uma praxis orientada para a acção que a maior parte das vezes considerou o "dar a outra face" como uma atitude "fraca", não pró-activa, "colaboradora", fácil. Andaremos enganados ? Não pró-activa, em que sentido ? Fácil, em que sentido ?

Em Surveillance Society os grandes temas da relação entre sociedade e tecnologias da informação e da comunicação são debatidos, os grandes temas da relação entre esfera privada e pública são interrogados, os grandes temas entre poder e poderes são inspeccionados, os grandes temas sobre a desconstrução e reconstrução das identidades e do corpo são equacionados. Ao mesmo tempo, e num mesmo tempo, David Lyon é um humanista, um humanista praticante.

E um silêncio introspectivo se instala quando a leitura do livro termina. Ainda bem.